
O Brasil vive uma escalada dos processos de recuperação judicial e das renegociações extrajudiciais de dívidas. Pressionadas por juros elevados, crédito mais seletivo e passivos acumulados nos últimos anos, empresas de diversos setores têm recorrido a mecanismos de reestruturação para evitar a falência e preservar as operações.
Um levantamento do Monitor RGF-BizDoc mostra que o país encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, o maior patamar da série histórica. Alta de 6,2% na comparação com o fim de 2025 e um avanço de 65,8% em relação ao segundo trimestre de 2023.
Ao mesmo tempo, a recuperação extrajudicial ganha espaço. Dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre) indicam que os pedidos saltaram de 16 em 2021 para 84 em 2025. Somente neste ano, as dívidas renegociadas por essa modalidade já ultrapassam R$ 109 bilhões.
“O crescimento das recuperações empresariais é o resultado da combinação entre elevado custo financeiro, endividamento acumulado, necessidade de refinanciamento de passivos, maior seletividade do crédito e dificuldades específicas de determinados setores. Os juros são um dos fatores centrais, mas não são os únicos”, conforme afirma o economista do Corecon-MG, Wallace Marcelino Pereira.
Muitas empresas contraíram dívidas durante o período de juros baixos na pandemia e passaram a enfrentar dificuldades quando precisaram refinanciá-las em um cenário de Selic alta, observa Pereira. “Uma empresa pode ter passado por 2021, 2022 ou 2023 com uma estrutura financeira administrável e começar a enfrentar dificuldades somente quando uma parcela significativa de suas obrigações passa a ser renovada em condições muito mais caras”.
Recuperação extrajudicial ganha força
O advogado especialista em Direito Empresarial, Caio Klouba, observa que a recuperação extrajudicial deixou de ser uma alternativa secundária. “Ela permite uma negociação mais direcionada, especialmente quando a maior parte do problema está concentrada em determinados credores. Em muitos casos, isso proporciona uma solução mais rápida, mais flexível e com menor impacto sobre a operação da empresa”.
De acordo com Klouba, a escolha entre a via judicial e a extrajudicial depende da gravidade da crise. “Quando a companhia continua operacionalmente viável e a crise está concentrada em determinados credores, a recuperação extrajudicial pode ser bastante eficiente. Já quando existe uma pulverização maior da dívida, bloqueios judiciais ou dificuldade relevante de negociação, a recuperação judicial pode se tornar necessária”.
O especialista destaca ainda que os dois mecanismos têm o mesmo pressuposto: a viabilidade econômica da empresa. “Esses instrumentos reorganizam dívidas, mas não substituem um modelo de negócio sustentável”, ressalta.
Prevenção ainda é desafio
Embora os números estejam em alta, Klouba defende que a recuperação não deve ser encarada apenas como último recurso. “Muitas empresas ainda procuram uma solução apenas quando a situação já está deteriorada, com restrição de crédito, atrasos e execuções. Nesse estágio, o número de alternativas já é muito menor”.
Pereira observa que o avanço das recuperações não significa, necessariamente, uma crise generalizada da economia. “Não é possível equiparar recuperação judicial à falência. Os dados mostram uma economia que continua crescendo, mas com empresas enfrentando dificuldades para lidar com o custo do capital e o refinanciamento de suas dívidas”.
Se entrar em recuperação é difícil, sair dela também representa um desafio. Após a aprovação do plano, as empresas precisam reconquistar a confiança de bancos, fornecedores e também investidores. “A firma precisa demonstrar disciplina financeira, geração de caixa, cumprimento das obrigações assumidas anteriormente, melhoria da governança e previsibilidade. Essa confiança é reconstruída ao longo do tempo”, afirma Klouba.
Na avaliação de Pereira, a recuperação jurídica não elimina automaticamente as restrições financeiras. “Dessa forma, uma empresa pode superar a crise e continuar enfrentando uma restrição financeira. Isso ajuda a explicar porque a retomada do investimento e do crescimento pode ser mais lenta do que a própria reorganização formal das dívidas”, conclui.