
A aprovação, pela Câmara Municipal de Belo Horizonte, do projeto de lei voltado à revitalização da área central da cidade trouxe novas perspectivas para o mercado da construção civil. De iniciativa da Prefeitura, a proposta estabelece uma Operação Urbana Simplificada com o objetivo de estimular a realização de novos projetos, a recuperação e modernização de imóveis, iniciativas de retrofit e a ampliação do uso residencial em regiões que já contam com infraestrutura urbana. Entre as áreas abrangidas estão os bairros Carlos Prates, Bonfim, Lagoinha, Concórdia, Floresta, Santa Efigênia, Boa Viagem, Barro Preto e Colégio Batista.
Para o setor, a expectativa é de que a regulamentação das medidas reduza obstáculos para a implantação de novos empreendimentos e favoreça a atividade econômica na capital. A iniciativa também poderá impulsionar a criação de postos de trabalho, a geração de renda e a circulação de recursos na economia de Belo Horizonte.
A urbanista Michele Silveira avalia que um dos principais benefícios da iniciativa está na possibilidade de aproximar moradia, emprego e serviços. “Quando uma cidade consegue colocar novos moradores em regiões que já contam com transporte, comércio, escolas e equipamentos públicos, ela aproveita melhor a infraestrutura existente. Isso pode reduzir deslocamentos e contribuir para uma ocupação urbana mais eficiente”.
Outro possível ganho, segundo a especialista, está na recuperação de edifícios que perderam sua função original. “O retrofit permite adaptar construções antigas às necessidades atuais, preservando parte da estrutura e, em alguns casos, elementos arquitetônicos importantes. A estratégia pode contribuir para modificar a paisagem de áreas degradadas sem depender exclusivamente da construção de grandes empreendimentos novos”.
Apesar das perspectivas positivas, a requalificação também apresenta riscos. O aumento do interesse imobiliário pode elevar o preço dos imóveis e dos aluguéis, dificultando a permanência de moradores de menor renda. “Caso a transformação seja conduzida sem políticas de proteção social, a valorização da região pode acabar provocando a substituição de uma parcela da população que já vive no centro”, aponta Michele.
O economista urbano Carlos Mendonça considera que o projeto pode produzir resultados importantes, mas alerta que os efeitos dependerão da maneira como as regras serão aplicadas. “Facilitar investimentos não é suficiente para garantir uma requalificação equilibrada. É preciso acompanhar os impactos sobre os preços, a população residente, o comércio tradicional e o patrimônio histórico. Se o processo for guiado apenas pela lógica imobiliária, existe o risco de produzir valorização sem necessariamente produzir uma cidade melhor para todos”.
Na avaliação de Mendonça, a Operação Urbana Simplificada pode ser uma ferramenta adequada para acelerar a recuperação do Centro, mas não deve funcionar isoladamente. “Para que a estratégia seja considerada a melhor alternativa, seria necessário combinar incentivos ao setor privado com medidas de habitação, preservação do patrimônio, melhoria da mobilidade, segurança, zeladoria urbana e estímulo ao comércio local. A questão não é escolher entre investimento público ou privado. O desafio é fazer com que os dois trabalhem com objetivos urbanos claros”.
A preocupação com a população que já ocupa essas áreas ganha relevância porque a requalificação tende a modificar não apenas os imóveis, mas também o perfil econômico e social dos bairros. Uma região com novos prédios residenciais, estabelecimentos comerciais e serviços pode recuperar movimento durante diferentes períodos do dia. Por outro lado, se o processo não considerar quem já mora e trabalha nesses locais, mudanças rápidas podem provocar a perda de atividades tradicionais.
Para Michele, o principal indicador de sucesso deverá ser a capacidade de transformar a região de maneira permanente. “A região Central não pode ser pensada apenas como um lugar para receber obras. O objetivo final precisa ser criar uma área mais viva, diversificada e utilizada pela população em diferentes horários. Se houver novos moradores, comércio funcionando, espaços públicos qualificados e preservação da identidade dos bairros, a requalificação terá produzido um resultado consistente”.