Existe um ditado popular que diz: “Metade dos juízes acha que é Deus. A outra metade tem certeza”. Ou a célebre, irônica e famosa frase de Bertolt Brecht: “Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça”. Os juízes, inclusive a Suprema Corte do Brasil, estão na ordem do dia, melhor dizendo na desordem institucional destes tempos quando a verdade não pode ser dita, muito menos publicamente. Reconhecer pecados ou crimes é dar razão às provas e documentos fáticos e reais, inclusive com a prisão do corruptor mor, uma bomba ambulante a tirar o sono da metade das autoridades deste país, do sol tropical, bonito por natureza, com certeza. E quem disse que estamos no tempo da verdade ou da razão? Estamos em outro e devastador tempo, das conveniências, corrupção, desonestidade, insegurança física e institucional, desonra, falta de ética e mentiras, nunca dos valores que ficaram perdidos no passado. Vagas lembranças dos homens de bem que os praticava outrora.
No Olimpo, quando deuses abusavam de seus poderes, Zeus os reunia, passava-lhes forte reprimenda e distribuía punições severas aos faltosos. Se Baco exagerasse na bebida, um período de abstinência era aplicado. Se Afrodite abusasse dos casos de amor, uma reclusão era imposta e penitências de solidão. A Hércules foi aplicada a pena e castigo de realizar 12 trabalhos. A Sísifo, traidor de Zeus, foi incumbido de rolar uma pedra gigante até o topo de uma colina íngreme, que inevitavelmente voltava e ele de novo a rolava até o cume, eternamente. Os deuses também pecam, os magistrados e juízes, apesar de suas condições sobre humanas, não são exceções.
A vergonha coletiva dos cidadãos brasileiros, na atual crise do Supremo Tribunal Federal, demonstra o estágio atual do ponto a que descemos em nossa sociedade. O crime organizado, as práticas desonestas cotidianas tão divulgadas, a convivência com os delitos no dia a dia, roubos, assassinatos, impunidades, desrespeito às leis nos fazem refletir sobre nosso destino e futuro, da necessidade de uma reformulação institucional de nossa frágil democracia. Segundo Maquiavel, no seu livro “O Príncipe”, escrito em 1513, “um povo que aceita passivamente a corrupção e os corruptos, não merece a liberdade. Merece a escravidão. Um país cujas leis são lenientes e beneficiam bandidos, não tem vocação para a liberdade. Seu povo é escravo por natureza”.
A vergonhosa reunião acontecida entre os ministros do Supremo Tribunal Federal, recentemente, demonstra bem em quais juízes e homens mortais, imaginários deuses, estão nossos destinos. Lá faltou tudo, respeito, dignidade, honra, probidade, ética, vergonha, sensatez e comportamento. Palavras e gestos, como desfaçatez, mentira, deslealdade, traição, dedos em riste, pérfidas ironias e cinismo foram usadas não deixando dúvidas quanto às suas personalidades. Ao final, e sem surpresa, um deles pelo único interesse de procrastinar a decisão de julgar um integrante, severamente acusado do pecado ou crime, pede vistas e assenta-se sobre o processo. Pelo seu peso político e jurídico o destravamento e julgamento do processo acontecerá após as calendas gregas, ou no popular “Dia de São Nunca”.