
A possibilidade de um El Niño de forte intensidade entre o fim de 2026 e o início de 2027 reforça a necessidade de aprimorar a gestão da água e preparar o agronegócio brasileiro para eventos climáticos extremos. O fenômeno pode alterar a distribuição das chuvas, provocar estiagens em algumas regiões e precipitações intensas em outras. Associado à elevação das temperaturas, esse cenário pode afetar o abastecimento, o desenvolvimento das lavouras e a criação de animais.
Para o sócio de uma greentech especializada em eficiência hídrica, Felipe Mendes, o principal desafio está na imprevisibilidade do regime de chuvas. “O El Niño não vai secar o Brasil inteiro. Ele desorganiza o regime de chuvas de uma forma desigual e acaba causando uma imprevisibilidade. E é justamente essa imprevisibilidade que torna o cenário perigoso para quem opera baseado em médias históricas”.
Segundo Mendes, atividades que dependem de abastecimento regular, como o agronegócio, a indústria e a geração de energia, precisam se preparar para diferentes cenários. Uma das primeiras medidas é monitorar o consumo para identificar desperdícios. Embora a conta de água informe o volume utilizado, ela não permite localizar perdas. A recomendação é acompanhar os gastos por setor e unidade, preferencialmente em tempo real.
“Tudo aquilo que você não consegue medir, você não pode melhorar. O primeiro passo é sair da fatura de água. Para identificar o desperdício, é necessário começar a medir esse consumo por área, por unidade e, preferencialmente, em tempo real”, orienta.
Após o diagnóstico, a recomendação é corrigir vazamentos, ajustar equipamentos e avaliar o reuso em atividades que não exigem água potável, além de estabelecer planos de contingência.
Impactos no campo
Na agropecuária, as temperaturas elevadas podem prejudicar o desenvolvimento das plantas, enquanto a irregularidade das chuvas interfere no calendário de plantio e colheita. Em regiões mais secas, aumenta a necessidade de irrigação. Já em áreas com precipitações intensas, podem ocorrer erosão, encharcamento do solo e dificuldades nas operações agrícolas.
“O problema não está apenas no aumento das temperaturas, mas na combinação entre calor, irregularidade das chuvas e disponibilidade de água. Teremos um efeito cumulativo dos impactos do calor e quebras de produção devido às mudanças climáticas”, afirma o engenheiro especialista em soluções contra o calor, Ricardo Valentini.
A criação de animais também é afetada. O estresse térmico pode reduzir o consumo de ração, prejudicar o ganho de peso das aves e diminuir a produção de leite, além de elevar os riscos de doenças e mortalidade em situações extremas.
Valentini ressalta que a redução das chuvas, por sua vez, compromete a disponibilidade e a qualidade das pastagens. “Na produção animal, conforto térmico não é luxo. É uma condição importante para a saúde, o bem-estar, a produtividade e a eficiência econômica da atividade”.
Entre as medidas preventivas, o engenheiro destaca o isolamento térmico, a ventilação, o sombreamento e a garantia de acesso à água. Coberturas expostas à radiação solar podem transferir calor para o interior dos galpões, o que torna necessário considerar as condições das instalações no planejamento.
O especialista também recomenda consultar previsões meteorológicas e ferramentas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), além dos boletins da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), para orientar decisões sobre plantio, manejo e infraestrutura. “Não podemos continuar projetando as estruturas do futuro considerando apenas as condições climáticas do passado. O clima mudou e os produtores e gestores devem se adaptar a essa nova realidade”, finaliza.