
No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou um crescimento no número de conflitos agrários, enquanto as mortes no campo apresentaram redução em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), esse cenário está relacionado ao avanço da mercantilização e da financeirização das terras no país. De acordo com os registros da comissão, foram identificados seis assassinatos no campo entre janeiro e junho deste ano, uma redução significativa em relação aos 27 casos registrados no mesmo período de 2025. Em sentido contrário, os conflitos aumentaram: passaram de 798 para 841 ocorrências. Os casos registrados neste ano são em grande maioria conflitos por terra (711), seguidos por conflitos por água (100) e ocorrências de trabalho escravo rural (30). Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a coordenadora nacional da CPT, Maria Petronila Neto.
A CPT aponta a intensificação da mercantilização e da financeirização da terra. Como esse processo está transformando as disputas pelo território?
A intensificação dos conflitos e da violência no campo está ligada às disputas por bens naturais, cada vez mais estratégicos para novas tecnologias, inteligência artificial e transição energética. O Brasil tem grande disponibilidade de matérias-primas e se torna alvo de interesses econômicos. As terras raras, fundamentais para tecnologias modernas, ganham destaque nesse cenário. Os povos e comunidades tradicionais são os mais afetados, especialmente na Amazônia e na Caatinga.
O que explica a concentração e o crescimento dessas disputas em determinadas regiões do país?
Maranhão e Amazonas integram a Amazônia Legal, região rica em recursos naturais e marcada por crescentes disputas econômicas. Essa pressão envolve governos federal, estaduais e municipais, interessados na exploração dessas riquezas. No Maranhão, nos últimos três anos, destacam-se conflitos por terra relacionados ao uso de agrotóxicos, prática chamada pelas comunidades de “guerra química”. No Amazonas, os conflitos também se intensificam diante das disputas por recursos e territórios. O aumento da violência resulta de um processo impulsionado, há anos, pela expansão das fronteiras agrícola, mineral e energética na região da Amacro.
No Sul do estado, especialmente em Boca do Acre e Lábrea, destacam-se conflitos ligados às BR-319 e BR-230 e disputas pela água, associadas ao garimpo e às ameaças ao Rio Madeira. Paralelamente, avançam o desmatamento, a pecuária, a soja e grandes obras de infraestrutura, processo que amplia a pressão sobre territórios e modos de vida das comunidades tradicionais.
O que os dados revelam sobre os impactos ambientais e humanos do atual modelo de exploração do território?
Esses dados apontam para um cenário de genocídio e etnocídio, marcado por uma “arma química invisível”, cujos impactos são difíceis de comprovar devido às limitações do sistema de saúde. Diante disso, questiona-se quem será responsabilizado pelos danos causados a povos inteiros, como os impactos da contaminação sobre o povo Munduruku. O próprio Estado aparece como agente, cúmplice ou omisso, tornando complexa a responsabilização.
Os conflitos pela água mais que dobraram, de 47 para 100 registros. O que está por trás desse crescimento e como estão tornando a água um dos principais focos de disputa no campo brasileiro?
A água tem se tornado objeto de disputa e exploração para atender aos grandes projetos do agronegócio, do setor hidroenergético e da mineração. Nessa lógica, passa a ser tratada como mercadoria, assim como a terra, as florestas e os recursos minerais, intensificando a mercantilização da natureza. Como consequência, os conflitos por água tendem a crescer, especialmente na Amazônia Legal.
Diante desse cenário, quais são as medidas mais urgentes que o Estado brasileiro deveria adotar para reduzir os conflitos e garantir a permanência dessas populações em seus territórios?
A primeira medida é garantir o cumprimento da Constituição e efetivar os direitos dos povos indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais, frequentemente ameaçados por projetos de exploração. Também é fundamental ampliar a participação e o controle social, avançar na reforma agrária e na demarcação e regularização dos territórios. Para isso, são necessárias políticas públicas efetivas, orçamento adequado e o cumprimento dos acordos internacionais, incluindo a consulta prévia, livre e informada às comunidades afetadas por empreendimentos.