“Nuances da Exclusão” revela desafios por trás do discurso de inclusão plena

Foto: Divulgação

A distância entre o discurso de inclusão e a realidade de pessoas com deficiência é o ponto de partida de “Nuances da Exclusão”, autobiografia do escritor Felipe Afonso. Usuário de aparelhos auditivos desde a adolescência, ele reúne experiências pessoais e reflexões sobre obstáculos presentes na saúde, na educação e no mercado de trabalho.

Com 13 capítulos e 188 páginas, a obra aborda isolamento social, custos das tecnologias assistivas, falta de acessibilidade e a dificuldade de transformar direitos previstos em lei em acesso efetivo. Segundo o autor, a escrita em primeira pessoa é combinada a referências históricas e bibliográficas para expor situações que ainda passam despercebidas no cotidiano.

“Quando comecei a escrever, ainda na adolescência, não tinha uma noção completa do que significava ser uma pessoa com deficiência no Brasil. Após me tornar adulto e precisar ganhar meu próprio dinheiro é que passei a conhecer de verdade as barreiras estruturais das pessoas com deficiência. Foi essa realidade que deu forma ao livro”, afirma.

Um dos aspectos abordados é a exclusão que não aparece como uma proibição direta. Felipe Afonso explica que no caso da deficiência auditiva, dificuldades de comunicação podem transformar situações corriqueiras em experiências de desgaste e afastamento. “Pode haver dez pessoas surdas com o mesmo grau de perda auditiva, mas com necessidades completamente diferentes. Às vezes, só precisamos que a pessoa fale de frente para nós, reformule uma frase ou escreva uma informação. Mas, em vez de ajustar a comunicação, muitas vezes nos infantiliza”.

A saúde é apontada no livro como uma das áreas em que a diferença entre o direito previsto e a realidade fica mais evidente. Para Felipe Afonso, o acesso às tecnologias assistivas pode determinar a possibilidade de estudar, trabalhar e se relacionar com autonomia. “Dependendo do modelo, o custo pode chegar a R$ 20 mil por ouvido e R$ 40 mil para quem precisa usar nos dois. O direito existe, mas a vida da pessoa não pode ficar suspensa até que ele seja atendido”.

Na educação, o capítulo “Pontos cegos” relaciona os desafios da inclusão às fragilidades da rede pública. Para o escritor, não basta garantir a presença do estudante com deficiência em sala de aula se a escola não dispõe de condições básicas para oferecer ensino de qualidade. “Quando tivermos uma educação digna, aí sim poderíamos começar a falar de educação inclusiva”.

No mercado de trabalho, Felipe Afonso aborda profissionais inseridos, mas com limitações para desenvolver suas competências. Formado em Engenharia da Computação e desenvolvedor de software, ele aponta a oferta de cargos pouco valorizados e salários baixos como parte de um problema mais amplo.

“O maior obstáculo talvez seja a normalização disso. É como se as pessoas com deficiência já tivessem seu lugar marcado no mercado de trabalho, antes mesmo de demonstrarem suas competências. Minha esperança é que um dia as empresas enxerguem potencial nas pessoas com deficiência, em vez de tratá-las quase sempre como um risco”, relata.

“Após a leitura de ‘Nuances da Exclusão’, espero que o leitor consiga enxergar por conta própria a realidade das pessoas com deficiência e questionar as ideias vazias que são propagadas aos montes em belas campanhas de inclusão. Este livro é apenas uma gota num oceano de informações, mas tenho esperança de que cada vez mais pessoas se interessem por ele e pelo que essas páginas procuram tornar visível”, conclui.

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