
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) pode ir além da acessibilidade e integrar a própria criação artística. Essa é a proposta de “Sentido”, espetáculo do Ballet Jovem Minas Gerais (BJMG). Com previsão de estreia para novembro, o trabalho foi pensado a partir da experiência da comunidade surda e se dirigir ao público ouvinte. A ideia é que a Libras participe da criação desde o início, em vez de aparecer apenas como tradução do que acontece em cena.
“O movimento é uma coisa que liga esses dois universos, a Libras enquanto língua e a dança contemporânea enquanto linguagem. Eu sempre tentava trazer alguma coisa relacionada à Libras, mas como um fragmento, como sinalização. Com esse trabalho, tive a oportunidade de ampliar essa relação e colocar, pela primeira vez, a Libras como foco desde o processo de criação”, afirma o diretor Maxmiler Junio.
Nos ensaios, os bailarinos estudaram parâmetros da língua e suas possibilidades artísticas. Em uma cena sobre a velocidade do mundo e o excesso de informações, os 30 integrantes sinalizam “mundo” e organizam seus corpos em meia-lua. “Eles são o mundo”, resume Junio.
O elenco também precisou alinhar a intenção dos movimentos ao significado dos sinais. Segundo o assistente de coreografia, Guilherme Gomes, o diretor propôs poemas, dinâmicas corporais e referências musicais para estimular a criação dos bailarinos. “O maior desafio é alinhar a intenção do que o corpo está dizendo com a intenção da pessoa/bailarino. Às vezes, um sinal tem uma intenção e o movimento pode acabar transmitindo outra coisa”.
A expressão facial é outro aspecto central. Para Gomes, os bailarinos precisam compreender o que comunicam, e não apenas repetir gestos memorizados. “A gente queria que toda vez que eles fizessem os sinais, estivessem realmente falando e comunicando. Quando conversamos, temos entonação, expressão e uma dinâmica própria. Isso também precisa aparecer no corpo”.
A artista surda e poeta Edmeia Miriam Cupertino atuou como consultora de Libras, colaborando com a sinalização e a tradução dos poemas. Segundo Gomes, a experiência dela ajudou a equipe a perceber quando uma versão mantinha a ordem do português, mas não fazia sentido na língua de sinais. “A tradução proposta pela Edmeia foi escolhida por ser muito mais poética, muito mais sensível do que só traduzir, além de apontar momentos em que a atenção do público poderia se dispersar”.
A música foi incorporada depois da estrutura inicial da obra. Maxmiler experimentou diferentes trilhas para observar como ritmo e pulsação alteram os movimentos, sem fazer do som a camada principal. “O desafio era conciliar essa relação de modo que o universo de nós ouvintes não seja a primeira camada”.
Sobre o projeto
“Sentido” integra o projeto “Ballet Jovem apresenta: Silêncios em Movimento”, aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de 2025, na modalidade Multilinguagens, do Fundo Municipal de Cultura. Criado em 2007, o BJMG atua na formação e profissionalização de jovens bailarinos. O diretor espera despertar o interesse pela língua e pela cultura surda. “Eu gostaria que todo mundo, ao final, tivesse esse desejo de se aproximar mais da comunidade surda, que a gente pudesse se comunicar mais”, conclui.