Novo calendário

A cada ano a novela se repete. Final de temporada se aproximando e as rodas de conversas se avolumando. A pauta é sempre a mesma: reformulação do calendário do futebol brasileiro. Dirigentes, jornalistas, treinadores, influenciadores, atletas, treinadores, torcedores, curiosos e palpiteiros defendem seus pontos de vista sobre o assunto. Os mais radicais querem uma transformação total, virar tudo de ponta cabeça. Outros, mais amenos, pregam ajustes. No fundo, quase sempre com base em teorias. Na maioria das vezes falando mais com o coração do que com a razão. Na prática, pouca coisa se aproveita. As entidades responsáveis pela organização do futebol têm os seus interesses, dando pouca atenção aos reclames ou sugestões. Pelo contrário, a cada ano acrescentam mais competições, mais times, mais jogos. O calendário vai ficando recheado, sobrecarregado. Sem contar os eventos internacionais promovidos pela Conmebol e Fifa. Na verdade, temos mais jogos do que datas disponíveis, o que provoca alterações constantes nas tabelas e outras situações. Os clubes, necessitando de mais faturamento para sustentar custos altamente inchados, ficam calados e vão rolando os problemas de viagens, desgaste físico, técnico e mental dos seus atletas, gramados ruins e outras situações para debaixo do tapete. Parece que agora começa a surgir uma luzinha no final do túnel. A CBF está com nova diretoria. O presidente é jovem e animado. Conta com vários bons dirigentes ao seu lado com desejo de alavancar melhorias. A entidade vem conversando com os segmentos do setor, buscando ideias com o objetivo de tentar racionalizar o tal calendário. A tarefa é gigantesca, os interesses são imensos, a política é brava e o custo para angariar patrocinadores é missão árdua. Existe um rascunho do que pode acontecer, como reduzir os estaduais de 16 para 11 datas. Evidente que muita gente que defende apenas os grandes clubes sempre é contra os estaduais. Esquecem que além de ser uma tradição, ajuda a manter a rivalidade regional, gerando trabalho e renda para muita gente e revelando oportunidade para o surgimento de novos talentos. Conta ainda com a força política das federações. Acabar jamais, o ideal é reformular e criar condições para viabilizar uma melhor presença da maioria dos times do interior. Em Minas, por exemplo, seria interessante uma competição ocupando a maior parte do ano com a presença de times de todas as regiões. Atlético e Cruzeiro só entrariam na etapa final. Vários formatos podem ser desenvolvidos com o objetivo de manter os times do interior em plena atividade, sem atrapalhar aqueles envolvidos em competições nacionais e internacionais. Evidente que é só uma sugestão. A efetivação merece um estudo técnico e econômico de maior profundidade. Outra competição que deve ser reformulada é a Copa do Brasil, o maior torneio de integração esportiva do Brasil, talvez do mundo. A ideia é dobrar o número de participantes, oferecendo espaço para que times menos conhecidos tenham boa visibilidade e faturamento. É importante também no aspecto social, cultural e turístico. Centenas de cidades ficam conhecidas graças a participação do time local recebendo ampla divulgação gratuita na mídia nacional. E temos o Brasileiro em quatro Séries. Na A e B não querem mexer. 40 participantes, de acordo com o formato atual. O que pode rolar é o crescimento de ligas para administrar, promover e valorizar. Na Série C, o número de participantes deve aumentar para 24 times. Na D para 96 times, com ajustes no formato. É legal, mas a dificuldade será levantar recursos para bancar os custos. Organizar um excelente calendário futebolístico em um país do tamanho do Brasil e com tantos times não é tarefa para amadores. Vamos esperar os próximos capítulos desta série interminável para sentir se o tal novo calendário do futebol vai ou não vingar.

Mão no bolso

A grande preocupação da nova diretoria da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é com a situação financeira dos clubes. Em geral, todos fazem altos investimentos sem a devida geração de receitas para cobrir tais custos, provocando déficit a cada ano. Com isso, a montanha de dívidas só aumenta de forma incontrolável. O pontapé inicial para estudar e tentar estancar a gravidade da situação foi dado pelo presidente da entidade, Samir Xaud. Um grupo de trabalho foi criado sob o comando de Ricardo Gluck Paul, vice-presidente da CBF, ex-presidente da Federação Paranaense e com larga experiência no segmento esportivo. Helder Melillo, diretor da entidade, foi escolhido relator do projeto. Este grupo tem adesão da maioria dos clubes das Séries A e B e de várias federações. A ideia é coletar o máximo de sugestões, tanto dos integrantes do mundo do futebol, como de especialistas em gestão e finanças. Ficou determinado que o grupo tem até meados de novembro para apresentar os primeiros resultados para o projeto do chamado Fair Play Financeiro. O ponto de partida será o modelo adotado na Europa pela União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) e por outros países. É algo já experimentado e com alguns ajustes pode ser um bom início. A princípio, segundo algumas fontes que consultamos, a proposta básica não pretende estabelecer teto para investimentos, mas colocar travas para gastos com percentuais de acordo com a receita. Simplificando, não permitir gastar mais do que arrecada. Os aportes de dinheiro dos donos ou sócios das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) merecem um capítulo especial. Do jeito que vem funcionando causa pouca transparência e muita ilusão. Esse chamado Fair Play Financeiro vai estabelecer também várias punições. Multas financeiras, restrição para inscrição de atletas, perda de pontos, descontos nos valores das premiações e até desclassificação de competições. O interessante do projeto é que os próprios dirigentes das federações sonham com uma boa solução para o drama. A bola de neve cresce a cada dia e as dívidas ultrapassam a casa dos bilhões. A galinha dos ovos de ouro está ficando fraca e adoentada. Se não for cuidada com responsabilidade, vai acabar morrendo. Vamos ficar atentos, aguardando os próximos passos do tal grupo de trabalho para sentir os avanços ou não da iniciativa. Acredito na boa evolução, mesmo porque, não tem outra saída. Enquanto isso, a CBF vai mexendo na sua arcaica estrutura. Pretende alterar o calendário, diminuir os regionais, aumentar o número de times na Série D e ampliar a Copa do Brasil. Além disso, maior incentivo para o futebol feminino, que vem crescendo, e bons programas para as categorias de base estão na pauta. Tudo bem encaminhado. Internamente, a CBF também mexe no seu time. Novos e bons profissionais vêm sendo contratados para renovar a gestão das competições, da comercialização de patrocínios e produtos, da tecnologia, da comunicação e de outras áreas. A venda dos direitos de transmissão dos seus eventos também sofre profunda agitação. Vai acabando a exclusividade e quem tem bala pode comprar pacotes variados, tanto as emissoras tradicionais como os canais digitais. Bom para o torcedor que pode escolher onde deseja assistir aos jogos, e excelente para os bons profissionais da imprensa esportiva. O mercado vem crescendo, pena que temos vários piratas no meio, transmitindo imagens dos jogos via internet, terra que parece sem dono. Transmitem sem prévia autorização, pagamento dos direitos e impostos, passando por cima das leis trabalhistas e das leis que regulam o trabalho dos verdadeiros profissionais de imprensa, causando prejuízo para todos. Uma situação que as autoridades competentes precisam entrar firme, cuidar e resolver. Enquanto isso, olho vivo e mão no bolso.

Apito complicado

Desde criancinha de calças curtas, indo aos jogos no velho campo do Sete com meus parentes, sempre gostei de observar o trabalho dos árbitros. Naquele tempo, eles eram mais gordinhos e usavam uniforme preto. Com apenas dois ajudantes, davam conta do recado e sem moleza. Entravam em campo sob vaias, xingados com palavrões impublicáveis em alto e bom som. Foi neste ambiente que aprendi bons impropérios. Os árbitros daquela época tinham coragem, encaravam os atletas, treinadores e dirigentes com bravura. Apitavam e assumiam a marcação no peito e na marra. Verdade que às vezes saíam do estádio correndo ou no carro da polícia. O tempo passou, o futebol evoluiu e novos protocolos foram criados para tentar amenizar o trabalho dos famosos sopradores de apito. Colocaram mais auxiliares em campo, surgiu o quarto árbitro com a função de cuidar das substituições, controlar o relógio e, quando necessário, substituir o titular. Melhorou um pouquinho, mas os problemas continuaram. Resolveram colocar mais dois auxiliares, um atrás de cada gol. O objetivo era ficar de olho bem aberto e conferir se a bola ultrapassou ou não a linha do gol ou da saída do campo, além dos empurrões e outras agressões dentro da área. Não funcionou bem, porque os tais dedos-duros foram alvos da ira dos torcedores e até mesmo da imprensa. O projeto morreu no nascedouro e foi uma iniciativa infeliz. Descobriram que a utilização de rádios comunicadores poderia ser uma boa solução. A nova ferramenta passou a ser utilizada. Árbitro e auxiliares se comunicavam durante o jogo para acertar decisões. Dizem que até gente de fora também participava, soprando coisas nos ouvidos dos apitadores. Até hoje essa tecnologia é usada, mas com equipamentos melhores e mais potentes. No final dos anos 1990, segundo o jornal esportivo Marca, o espanhol Francisco Lopes, que nem árbitro era, desenvolveu o projeto do árbitro de vídeo. Daí nasceu o conhecido VAR ou Árbitro Assistente de Vídeo em nossa língua. No Brasil, a novidade estreou em 2017 e aos poucos foi sendo implementada nas principais competições oficiais. Utiliza um árbitro de vídeo, três assistentes e um observador. Com várias câmeras, pegando todos os ângulos e um complexo sistema de linhas, gráficos, medidores e outros recursos, o VAR tenta ser o olho eletrônico definitivo para dirimir dúvidas que o árbitro de campo possa ter. Gols, pênaltis, expulsões e identidades equivocadas precisam de auxílio do olho do VAR, ainda que o árbitro principal seja o único que pode consultar e solicitar alguma revisão. Lembrando sempre que a definição final da marcação tem que ser sempre do apitador principal. Infelizmente, não é. Temos acompanhado na maioria dos jogos a transferência de responsabilidade. Dificilmente o árbitro assume o que marca ou não marca e empurra o problema para o VAR. Começa um jogo de empurra danado. A partida fica parada por um bom tempo. Os caras ficam discutindo se foi ou não foi, jogadores formam bolinhos para pressionar e todo mundo palpita. O soprador de apito fica com cara de bobo, andando para lá e para cá, tentando ouvir quais são as orientações. Depois de longo e tenebroso tempo perdido, vem alguma decisão, muitas vezes errada. O que era para ser um recurso inteligente, moderno e rápido vem se transformando em um sofrimento, um circo dentro de campo. Total falta de respeito com o público que paga pelo ingresso caro para ver bola rolando e não para acompanhar reunião de arbitragem. Os árbitros atuais usam uniformes coloridos, cabelos cortados na régua ou raspados, instrumentos importados e só. Recebem boas diárias e cachês, mas não conseguem entregar o básico da profissão: atuar conforme determina as regras do jogo. Preferem falar em interpretação, intenção e outros termos na tentativa de fugir da responsabilidade e tocar o problema para frente. Difícil saber se é falta de qualificação ou medo de perder lugar ou promoção. Sei não, do jeito que a coisa caminha, penso que o árbitro, seus auxiliares e turma do VAR, em breve serão eliminados do futebol. No lugar, vão encher jogadores e bolas com chips e colocar um robô para comandar o espetáculo. Tudo com base na inteligência artificial. Quando isso acontecer, o mais chato será não ter para quem gritar palavrões. A não ser que inventem nomes bem feios em linguagem de robótica.