Cerca de 30% dos mineiros atrasam o aluguel por conta de apostas on-line

Uma pesquisa inédita feita pela Loft, em parceria com a Offerwise, mostra que quase um terço dos mineiros que pagam aluguel (cerca de 28%) diz ter enfrentado ou conhecido alguém que enfrentou atraso no pagamento devido a apostas ou jogos de azar virtuais. O problema é ainda mais frequente entre as classes C e D, onde o percentual chega a 38%. Entre os entrevistados que jogam, quase um terço (32%) declara investir até R$ 50 por mês em apostas, enquanto 13% desembolsam até R$ 300 mensais. O levantamento indica ainda que o hábito é novo para muitos: mais da metade (52%) começou a apostar há menos de um ano. Nos últimos 12 meses, 32% dos jogadores afirmam ter perdido até R$ 50, e 10% relatam perdas acima de R$ 500. Apenas uma pequena parcela, 13%, conseguiu não ter prejuízo. Mesmo entre quem não possui renda própria, os efeitos são visíveis: 67% perderam até R$ 50, e 33% chegaram a perder até R$ 100. Outros dados são que, em Minas Gerais, 55% dos entrevistados avaliam que as apostas on-line fazem mal à sociedade. Para 78%, elas são responsáveis por agravar o endividamento das famílias. Apesar disso, 30% acreditam que, com equilíbrio, as apostas podem servir como entretenimento, e 28% as veem como uma alternativa para complementar a renda. A maioria dos mineiros pede mais fiscalização: 83% defendem normas mais severas para o setor e 81% dizem que a maior parte dos apostadores perde dinheiro. A economista Renata Tavares destaca que a falta de regulamentação e monitoramento das plataformas é um fator que agrava o cenário. “Hoje, qualquer pessoa com um celular pode se cadastrar em um site de apostas, depositar dinheiro e começar a jogar em minutos. Não há controle efetivo sobre idade, renda ou limites de gasto. Isso cria um ambiente propício para o endividamento e, em casos extremos, para fraudes e lavagem de dinheiro”. Ela ressalta que o setor movimenta bilhões de reais por ano no Brasil, mas boa parte desse dinheiro circula em empresas sediadas no exterior, sem tributação adequada. “A ausência de fiscalização impede que o Estado arrecade impostos e também que o jogador tenha garantias. Em muitos casos, quando há suspeita de fraude ou bloqueio de valores, o consumidor fica completamente desamparado”. Para a profissional, a popularização das apostas está ligada a um contexto de incerteza econômica. “Vivemos um momento em que o custo de vida é alto e o poder de compra diminuiu. As apostas aparecem como uma ilusão de mobilidade financeira rápida, principalmente para quem tem poucas oportunidades. É um fenômeno social que mistura esperança, desespero e entretenimento”. “É uma armadilha que começa com diversão e termina com desespero, visto que o cérebro é programado para buscar recompensas rápidas e as plataformas usam mecanismos semelhantes aos das redes sociais e até de cassinos físicos para manter o jogador engajado. Quanto mais ele perde, mais sente necessidade de apostar novamente para recuperar o prejuízo”, explica. “Dinheiro fácil” Na avaliação do psicólogo Rogério Menezes, o governo precisa encarar o vício em apostas como uma questão de saúde pública. “Hoje, o acesso é irrestrito, qualquer adolescente com um celular pode criar uma conta, usar o cartão dos pais e começar a jogar. Falta uma política de conscientização e, principalmente, mecanismos de proteção, como limites de depósito e bloqueio de contas para jogadores em situação de risco”. Menezes afirma que é essencial que a população seja alertada sobre os perigos do chamado “dinheiro fácil” e defende campanhas educativas semelhantes às realizadas contra o tabagismo, com mensagens claras sobre os riscos do vício. “As pessoas precisam entender que as chances de ganho são mínimas e esses sites não são um investimento, e sim um negócio criado para lucrar com a perda do usuário. O problema não é apenas econômico, quando o jogo passa a ocupar o lugar do trabalho, do estudo ou da convivência familiar, estamos diante de um problema de saúde pública”.