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A Babel na pandemia

*Itamaury Teles

Coincidentemente, no meu artigo anterior, usei a metáfora do Dilúvio para falar das tempestades que se abateram sobre Minas Gerais, de modo especial em Belo Horizonte, cujos carros boiando lembravam a Arca de Noé, singrando sobre as águas que, abundantemente, caíram dos céus.

Neste meu comentário, usarei da mesma figura de linguagem, porém relacionada ao mito bíblico da Torre de Babel, contido no livro de Gênesis.

A história nos conta que a humanidade era uniforme nas gerações seguintes ao Grande Dilúvio, falando um único idioma. A soberba do homem, todavia, o fez achar que poderia chegar aos Deuses, construindo uma torre até a sua morada, no alto do céu. Quando a torre estava em determinada altura, os deuses se enfureceram e provocaram uma confusão dos diabos, confundindo a linguagem das pessoas. Este mito é utilizado como uma tentativa de se explicar a existência de tantas línguas.

A partir desse fato, a obra foi suspensa, pois uma verdadeira balbúrdia se instalou: todos falavam e ninguém entendia coisa alguma. Essa confusão parece ter-se reinstalado na humanidade, a partir de janeiro deste ano, quando as primeiras notícias passaram a ser veiculadas sobre a existência de uma grande ameaça à humanidade: um novo coronavírus, assim denominado por ser de uma cepa mutante e ter a forma de uma coroa. Ele foi recentemente batizado de Sars-CoV-2 e o nome da doença respiratória por ele causada de Covid-19.

A nova confusão começou a surgir com a desimportância dada ao assunto por algumas autoridades médicas, que afirmavam em redes sociais que este seria apenas um vírus a mais, que causaria uma simples gripe, não havendo, portanto, motivo para pânico entre as pessoas. Ademais, sua taxa de letalidade era inferior a de outros vírus que infectaram a humanidade e esta, ao fim e ao cabo, resistiu bravamente.

Em sentido contrário, outros alardeavam que se tratava de vírus desconhecido, mutante, que se originara de morcegos, mamíferos largamente consumidos como iguaria na China. E que este novo vírus poderia se espraiar rapidamente mundo afora, causando mortes, principalmente em idosos, em geral fragilizados por problemas de hipertensão, diabetes, doenças renais, cardiovasculares e respiratórias.

De fato, a pandemia já fora constatada pela Organização Mundial da Saúde. Houve até quem dissesse que o vírus foi gerado em laboratório e utilizado na guerra geopolítica da China para dominar a economia mundial. Para essas pessoas, o fato de terem montado em 10 dias um grande hospital de campanha, com mil leitos, exclusivo para os infectados pelo novo coronavírus era bastante sintomático para se comprovar a tese de que tudo fora previamente engendrado.

No mesmo diapasão, o fato de os índices das Bolsas de Valores dos principais países do mundo apresentarem quedas vertiginosas, aviltando o preço de mercado das grandes corporações, em especial das fornecedoras de insumos estratégicos para a China, foi entendido como uma ação astuciosa da mão invisível do Partido Comunista, que controla o “capitalismo estatal” do país vermelho. Para muitos, aquele país oriental aproveitou-se da baixa e adquiriu as ações a preço de banana.

A bem da verdade, estratégia é algo que os chineses dominam, com sua paciência e sabedoria milenares. Aliado a este fato, a palavra crise, em mandarim, nada mais é que a junção de dois ideogramas antagônicos: ameaça e oportunidade. O povo chinês, por tradição cultural, não vê a crise – como a causada por este novo coronavírus – apenas como uma ameaça, mas também e, principalmente, como uma oportunidade para conquistar espaço estratégico. Lucro, enfim.

Sabe-se que a China, em pouco menos de 2 meses, já controlou o surto e até já desativou os hospitais de campanha, após o vírus infectar mais de 80 mil e causar a morte de mais de 3.000 pessoas. Países do hemisfério Norte, como Alemanha, Estados Unidos, Espanha e Itália, após contabilizarem perdas humanas, econômicas e financeiras, deliberaram, tardiamente, recomendar que os cidadãos se isolem em suas casas, frequentando os locais públicos somente por necessidades médicas e para adquirir víveres.

Em meio ao fogo cruzado de informações desencontradas, o Brasil segue como se fosse uma ilha de tranquilidade em meio a um oceano revolto por contaminações e mortes. Mesmo com 654 casos de contaminação confirmados e sete morte até agora, boa parte da população brasileira vem aproveitando os recessos forçados por decretos para ir à praia, clubes e a shoppings, ao invés do recomendável isolamento social.

Assim, só nos resta torcer para que o vírus não suporte o nosso calor ou para que Deus – que é brasileiro – nos ajude nessa previsível e difícil travessia.

Jornalista e escritor
itamaury@hotmail.com