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“Intolerância religiosa se deve à descrença na democracia”

Carlo Pancera: “Quando o sistema político, que deveria dar conta das diferenças, deixa de existir, não há intermediação para esses conflitos no espaço público” (Foto: Arquivo pessoal)

A palavra religião vem do latim religare, que significa religar, voltar a unir duas partes que estavam separadas. Mas, hoje, não é o que acontece, já que a intolerância religiosa cresce, a cada dia, no Brasil. Segundo pesquisa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, é realizada uma denúncia a cada 3 dias no país e 32% desses relatos, compilados entre 2013 e 2014, envolveram violência física.

O assunto foi tema da redação do Enem 2016 e trouxe à tona a pergunta: por que é tão difícil respeitar a religião do próximo? Para o professor de filosofia política da UFMG, Carlo Gabriel Pancera, a intolerância tem a ver com a descrença da população na democracia, uma vez que ela existe para que todos saibam respeitar os diferentes pensamentos em uma sociedade.

O Edição do Brasil conversou com o especialista a fim de entender melhor quais são os impactos gerados pela intolerância religiosa.

 

Qual a importância da religião na vida de uma pessoa?

Ela orienta moralmente a vida dos indivíduos, pois é pautada em valores. Neste sentido, a religião tem um papel formativo. Há diferentes crenças, que formam diferentes valores. Mas, é preciso dizer que seguir uma não é a única maneira que podemos ter para encontrar referências, além da família e laços mais íntimos. Contudo, certamente, é o lugar onde as pessoas, no geral, se baseiam para orientar suas ações no mundo.

 

Por que a intolerância é uma realidade no Brasil?

A crença está fundada em uma ideia de que determinada religião é que possui a verdade. Mas, na medida em que ela impõe isso, falsifica as demais e se fecham para um possível diálogo. Isso, todas as religiões fazem. Elas reivindicam para si um certo tipo de interpretação, com base em um texto sacro, como a Bíblia ou o Alcorão.

Outro motivo que, para mim, é o principal é a descrença da população na democracia.

 

Como a democracia pode ter relação com esse assunto?

Os assuntos – política e religião – têm uma ligação muito forte. Como as religiões são baseadas em dogmas e eles não são propícios a discussão, as pessoas tendem a crer que sua crença é a única verdade. E eles defendem isso não abrindo diálogo, querendo impor ao outro que aceite o seu pensamento. Porém, vivemos em um país democrático, onde temos que conviver com vários grupos, cada um reivindicando seu conjunto de valores. E é a democracia que assegura e cria mecanismos para que as pessoas que pensam diferente, convivam na mesma sociedade.
Entretanto, a partir do momento em que a classe política colocou isso em cheque, tirando uma presidente eleita pela maioria das pessoas, a população deixou de acreditar na política. Uma prova disso foi o balanço da última eleição que mostrou que um terço dos eleitores deixaram de votar.

 

Diga o impacto dessa intolerância para a sociedade.

Quando o sistema político, que deveria dar conta das diferenças, deixa de existir, não há intermediação para os conflitos no espaço público, o que gera violência, desgaste psicossocial e dificuldade de relação entre as pessoas. No entanto, o principal impacto é a violência. Normalmente, vemos os grupos mais fracos, como os de matriz africana, sendo perseguidos. A intolerância vem, principalmente, de outras religiões, como os protestantes e/ou católicos e isso propaga a violência. As pessoas são estimuladas por esses grupos mais radicais e agem como portadoras da verdade, pois, de alguma forma, tem acesso a um saber divino que as outras não tem. Elas querem impor aos outros sua crença e se essa imposição não se dá na base da persuasão, o que resta é a violência que toma proporções absurdas. Se buscarmos na nossa história, veremos que a intolerância religiosa já matou muitas pessoas.

 

Qual poderia ser a solução para minimizar essa violência?

Aprofundar e aperfeiçoar o nosso senso democrático. Nosso sistema político deveria nos oferecer uma solução para que os diferentes grupos pudessem encontrar expressão, sem que isso resultasse em violência contra os que pensam diferente.

Uma outra solução seria a moral, implicando que as pessoas sejam mais prudentes e cuidadosas ao se expressar. Mas, isso também é resultado de um convívio democrático, porque a democracia pede que as pessoas saibam se colocar em público e conviver umas com as outras, respeitando a opinião e crença do próximo. Sem ela, acredito que não haja uma solução possível. A única maneira de frear o problema é reconstruindo a democracia do país, pois, se ela não for controlada e colocada nos eixos, viveremos tempos de intolerância política e religiosa por muito tempo.