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Chuvas e trovoadas no céu de Bolsonaro

Foto: José Dias/Fotos Públicas

Por: Jader Viana – Jornalista e ec onomista*

“A política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Você olha de novo e ela já mudou”. O ensinamento do ex- -governador de Minas Gerais Magalhães Pinto, morto há 25 anos, tornou-se lugar- -comum na catequese política em todo o Brasil. Do alto de sua experiência política de mais de 40 anos, o ex-governador aprendeu e também ensinou que na política as situações são transitórias e podem sofrer guinadas repentinas, influenciadas por um gigantesco emaranhado de interesses, desejos e caprichos.

Apesar desse caráter extremamente efêmero da política e sabendo que posso me enganar redondamente num futuro bem próximo, vou me arriscar aqui a respeito da derrota iminente de Bolsonaro nas próximas eleições.

Ao olharmos as nuvens desde que assumiu o governo em 2019, vemos que elas não se movimentaram muito de lá para cá. Podemos dizer, sim, que foram ficando cada vez mais carregadas, mais escuras, como as que antecedem as tempestades. Antes mesmo de assumir a presidência, Bolsonaro, eleito com mais de 55 milhões de votos, começou rapidamente a perder popularidade. Primeiro foram as denúncias de rachadinha envolvendo um dos seus filhos, ex-esposa, amigos e assessores de longa data. Depois, iniciado o governo, começaram as constantes brigas e disputas políticas internas entre as áreas ideológica, militar e política do governo. A cizânia enfraqueceu e desacreditou o governo paulatinamente durante pouco mais de um ano.

Quando as coisas estavam indo de mal a pior no que se refere à aprovação do governo, um vírus pegou o mundo de surpresa. Era a chance que Bolsonaro precisava para reverter a queda do apoio. Praticamente todos os líderes mundiais ampliaram sua popularidade com medidas duras e assertivas contra a propagação do vírus. Aqui o que se viu foi o oposto. Com sua postura negacionista diante da crise epidemiológica, o presidente conseguiu ampliar ainda mais a fatia dos descontentes com seu governo.

O único alívio para Bolsonaro veio depois do início do pagamento do auxílio emergencial, pago a mais de 60 milhões de brasileiros. Ao analisar as curvas de positivo e negativo do governo, sintetizadas pela Jota, startup especializada em compilação de dados, observa-se claramente a trajetória da popularidade de Bolsonaro. Com avaliação positiva na casa dos 47% no início do mandato, o presidente caiu rapidamente ainda em abril de 2019 para a casa dos 34% de aprovação, patamar que se manteve mais ou menos estável até março do ano seguinte, quando começou a pandemia. A partir daí a aprovação cai para a casa dos 28% em junho e em outubro sobe para o patamar de 37%, fruto do mencionado pagamento do auxílio. No fim do ano, a aprovação tem nova queda acentuada e piora com o agravamento da pandemia em abril de 2021, chegando a 25%, patamar que se mantém até hoje. A curva de reprovação de Bolsonaro caminhou, evidentemente, no sentido oposto. Saiu da casa dos 16% no início do governo e está no patamar de 53% atualmente.

Como se não bastassem todos esses problemas, Bolsonaro agora terá mais dois desafios que podem jogar a pá de cal em sua reeleição. O primeiro é a economia capenga. Historicamente, processos eleitorais são diretamente afetados pela situação econômica. Quanto melhor a economia, maiores as chances de reeleição de um candidato. Neste quesito, as previsões não ajudam Bolsonaro no ano que vem. Com inflação em alta e em trajetória ascendente, o Banco Central precisa aumentar a taxa básica de juros cada vez mais. Essa elevação encarece o crédito, diminui o consumo e retrai a produção, aumentado ainda mais o elevado nível de desemprego. De acordo com o boletim Focus divulgado nesta semana, a previsão do mercado é que o país crescerá irrisórios 0,58% em 2022, terá uma inflação de 5% ao ano e terá uma taxa Selic na casa de 11,25% ao ano. Hoje está em 7,75%.

O outro novo desafio que Bolsonaro enfrentará é a candidatura de seu ex-ministro e ex-juiz, Sérgio Moro. As primeiras pesquisas feitas depois de sua filiação a um partido político mostram que Moro tira mais votos de seu ex-chefe do que de Lula, condenado por ele e depois posto em liberdade por erros no julgamento.

As nuvens estão mudando. Tudo indica, entretanto, que pelo menos para Bolsonaro estão se transformando em cumulonimbus, aquelas responsáveis por grandes volumes de chuva, raios e trovoadas.