“Brincadeira tem hora” - Edição do Brasil
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“Brincadeira tem hora”

O rap como estilo musical surgiu na Jamaica nos anos 1960, propiciado pelo aparecimento dos potentes sistemas de som portáteis, permitindo aos rappers levarem para as ruas, em formato musical próprio, suas idiossincrasias. Já nos Estados Unidos, na década de 1970, dentro do movimento hip hop, nas festas de rua, esses mesmos jamaicanos, se valendo de sua reconhecida capacidade artística e notória musicalidade, deixaram os guetos e ganharam as ruas, os palcos, os shows e, por fim, a mídia. Esta forma de explicitar as dificuldades da vida se tornou um fenômeno musical mundial, próprio daqueles que veem o mundo de baixo para cima. O rapper brasileiro, Lucas Afonso, reunindo competência, coragem e um olhar atento a incapacidade, para não dizer cinismo, do dirigente maior desse país cada vez pior, nos ofereceu, com o improviso característico desse estilo, sua visão do que estamos sofrendo com esse governo neste período de pandemia.

Brincadeira tem hora.
Piada boa é quando todo mundo ri.
Essa postura tua daí não tá da hora presidente de chacota e meus pais na UTI.
Não tinha teste pra COVID na quebrada e vocês sabem como é que as coisas são,
na mesma hora me lembrei da empregada que acabou contaminada pela patroa e o patrão
que chegaram de viagem da Europa, contaminados dentro de um avião.
Oh, esse mundo não dá voltas, ele capota, morreu quem talvez nunca tirou seus pés do chão.
Primeira morte de COVID no Brasil, sinal amarelo, atenção, perigo à vista, quem não respeita o luto, não respeita nada, viu.
O presidente levou um humorista pra dar entrevista.
Brincadeira tem hora.
Piada boa é quando todo mundo ri.
Eu acho injusto te chamarem de palhaço que o sorriso tá escasso desde que chegou aí.
Não serve pra presidente do Brasil e nem pra síndico de condomínio, aliás, acharam a casa cheia de fuzil e o dono é aquele amigo do seu vizinho.
Vinte e sete anos na função de deputado, e quer chamar de vagabundo quem luta pra ter um lar?
Agora diz: quantos projetos aprovados? E seu auxílio moradia, mesmo tendo onde morar?
Bateu no peito e disse que era patriota, Brasil acima de todos, viva o povo brasileiro.
Deve pensar que somos todos idiotas quando diz que é gripezinha e que ele não é coveiro.
Aliás, não é coveiro mesmo. Não tem capacidade pra exercer essa função,
porque coveiro tem a sensibilidade com a família diante do ente querido no caixão.
Brincadeira tem hora.
Piada boa é quando todo mundo ri.
Tem mãe, tem pai, tem filho que essa noite chora, pois não tiveram uma chance pra poder se despedir.
Enquanto o povo aguarda pela vacina, ministro diz não entender tanta ansiedade.
A negligência do governo assassina quem pega trem lotado nas beiradas da cidade.
Um general que não entende de medicina, milhões de testes prestes a perder a validade.
Presidente na entrevista fez gracinha e disse que matar é sua especialidade.
Joga no time do inimigo, incentiva aglomeração.
Fala pra tomar remédio que não tem comprovação, tipo, pula de um prédio, ou melhor, de um avião.
Pode ir sem paraquedas, se morrer, ele culpa o chão.
Faltou oxigênio nos hospitais de Manaus, faltou luz por vários dias no estado do Amapá.
O Brasil na pandemia vive só dias de caos e o ministro vir falar de dia D e hora H?
Brincadeira tem hora.
Piada boa é quando todo mundo ri.
Acho que sei porque a vacina ainda demora, pois se o povo sai agora, sua casa vai cair.
Enquanto o povo segue desassistido, o governo federal indiferente quer falar da eleição dos Estados Unidos,
como se aqui nós não tivéssemos assuntos mais urgentes.
Eu não sei se estaria resolvido, mas com certeza estaria diferente se na eleição o Brasil não tivesse perdido e eleito um racista pro cargo de presidente.
Brincadeira tem hora.

*Hyé Ribeiro
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