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Desabafo

Do alto da sua sabedoria adquirida em 90 anos de vida, o cineasta Ruy Guerra, ao ser agraciado, no final de setembro, com o prêmio de melhor diretor no Festival de Cinema de Gramado pelo filme “Aos Pedaços” fez um firme discurso, exemplo para os mais jovens. Ruy não se limitou ao seu direito de ser contra o desgoverno atual que é racista pleno devido ao seu descaso com indígenas e quilombolas. Após denunciar a também patente “tentativa de destruição de artes e ciências”, comemorou que a arte seja sinônimo de vida e que resista.

Com a firmeza, maturidade e sinceridade dos mais velhos, ele falou sobre o “ar pútrido do Brasil contemporâneo” e reafirmou a importância das artes em dar às pessoas oportunidade de respiro, inteligência e sensibilidade em momento histórico tão ingrato!

Não conheço o Ruy Guerra pessoalmente, mas aplaudo a sua coragem de falar o que pensa. É muito simples em roda de amigos ou em sofrida solidão, em total abstinência ou em meio a cervejas, cachaças ou drogas pesadas, matutar ou falar sobre o que quer que seja.

Cada um que faça a sua parte. Eu, por exemplo, posso até estar errado em algumas conclusões, mas pesquiso, analiso, raciocino sobre o que escrever e compartilhar. Às vezes, tento usar da ironia ou do humor, porque entendo que “quando a gente ri do demônio, a gente tira a força dele”. Parodiando uma conhecida melodia que diz “não apreendi a dizer adeus, o inverno vai passar”, defendo os que denunciam – baseados em fatos e não em suposições – o atual status-quo, trocando, na música, “o inverno vai passar” por o INFERNO vai passar.

Já passei da idade de ter medo de falar, coisa, aliás, que nunca tive, haja visto os perrengues que passei na época da plena escuridão em que fui levado a conhecer os porões da ditadura e ver o que me esperava se, como editor geral de emissoras de rádio e TV, continuasse defendendo estudantes ou artistas. Conheci, vi, não gostei, mas não me amedrontei.

Infelizmente, passadas décadas, não é só o medo que atinge milhões e milhões de brasileiros. É pior, bem pior. É o comodismo, a aceitação. É o achar, como disse em propaganda enganosa o deputado Tiririca, que “pior que está não fica”… mas ficou! Hoje é a omissão que mais destrói. É pior, muito pior, pecar por omissão do que por ação. Gente que ajudou o atual governo a se eleger, muita gente boa, muita gente ótima – melhor dizendo – que foi iludida e que, por vergonha ou sei lá o quê, não aceita reconhecer o erro, achando que outra solução talvez fosse pior ainda.

“Votei para fugir da roubalheira desenfreada”, dizem alguns. O problema é que o mal se tornou ainda pior. A roubalheira continua mais feroz e gananciosa do que nunca. Mas houve muito mais piora… e como houve e há todo dia! Não se trata mais apenas de pôr a mão ou esconder na cueca o dinheiro. Funcionários públicos, em busca da sobrevivência nesta época de crise de empregos, têm que se sujeitar a pagar mesadas para políticos patrões a fim de garantir seus lugares. Haja rachadinha, haja laranjal! Outros, tão safados como seus “mestres”, apenas recebem sua parcela e nem precisam aparecer em local de suposto trabalho.

E os falsos (há até um superior autoproclamado) doutores, que receitam o mal que pode matar, como santidade contra a pandemia. Vai morrer gente? “E daí”, repetirá alguém. Se não liga para os índios e os quilombolas que estão sendo extirpados… “e daí” deve reiterar alguém bem conhecido.

Lembro-me bem do que hoje os aquartelados em palácios chamam de “tempos áureos” e querem reviver. Foi uma época trágica e que, em alguns momentos, era tragicômica, como a censura que, para verdadeiros jornalistas, além de nauseabunda, também era fonte segura de informação, porque, muitas vezes, só ficávamos sabendo de determinadas ações porque chegavam às redações fax, telex ou outros comunicados proibindo de noticiar isso ou aquilo, desde um simples aumento no preço do tomate até um sequestro objetivando futura troca de prisioneiros.

Nesta área, ainda bem que hoje os tempos mudaram. Está difícil, quase impossível, que os supremos poderes ocultem as sandices que assolam o país. Pena que muita gente, bote milhões de pessoas no número, prefira não acreditar na ciência, por exemplo, para dar crédito a quem se aboleta em cargos, tipo Donald Trump (o triste fenômeno não é só brasileiro) que como criança birrenta parece cantar “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Entre seus mais ferrenhos adeptos está um fã fanático, também preocupado com reeleição e manutenção do poder e proteção à sua família, tradição e propriedades. Quem será? Não seja omisso. Pense!

*Sérgio Prates
Jornalista

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