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Infelizmente, ridículas histórias reais

A tragicomédia que embala e abala o Brasil é cada vez mais perniciosa, inclusive porque há quem acredite e defenda personagens de plena ignorância que simplesmente não entendem nada das áreas em que se aboletam, fato comum nas mais diversas instâncias do poder.

É o caso de decisão do Pazuello, um dos 6.157 militares em desvio de real e importante função que assumiram cargos civis no governo federal. O agora efetivado ministro da Saúde nomeou para o programa nacional de vacinas do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis, o veterinário Laurício Monteiro Cruz. Nada contra veterinário algum, ao contrário, todos animais devem ser bem tratados, mas temo que dentre tanta coisa sem sentido emanada em Brasília, a escolha seja mais uma maluquice maléfica.

Por outro lado, enquanto Bolsonaro hesita em sancionar Lei que aumenta punições para quem maltrata animais, pergunto se também não merece cadeia quem difunde pessoalmente o risco mortal de transmissão de vírus que mata seres humanos. Quem é “mascarado” (sentido da gíria) não precisa de máscara de proteção para si e para as pessoas às quais vai ao encontro?

E o que dizer da Secretaria Especial de Comunicação Social? Em atitude histriônica colocou em redes sociais publicidade com a frase do chefe presidente: “Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. Seria uma justificativa para a omissão criminosa que ocorre na saúde, onde nenhuma vacina obrigatória para menores de dois anos atinge a meta de cobertura? O fato é aterrador se lembrarmos que, antes de Bolsonaro, nosso Programa Nacional de Imunizações era ótima referência mundial. Agora, também em matéria de comunicação, o Brasil é alvo de piadas mundo afora, como acaba de ocorrer ao mostrar um mico leão dourado como exemplo de que não há queimada na Amazônia. O que nunca existiu lá é mico leão dourado, que só vive na Mata Atlântica, milhares de quilômetros além.

Qual estapafúrdia ideia virá agora? Espero que não tenha nada mais a ver com o que família e adeptos do Mito dizem tomar como remédio milagroso para enfrentar a COVID. Esqueçam o que proclamam os NÃO médicos presidentes daqui e dos Estados Unidos, sendo o de lá gigantesco acionista da Sanofi, fabricante da hidroxicloroquina. Trump comprou tantas doses que descartou um milhão de comprimidos de presente para o Brasil. “Se precisar de mais, ligo para ele”, agradeceu sorridente o mito brasileiro. Em tempo estranho, parece que é graças à cloroquina que a Farmácia Popular não vai acabar, com o governo mudando de opinião para distribuir de graça o encalhado remédio!

É estranha a “love story” Bolsonaro e Trump, em que nosso presidente tanto admira o manda-chuva da Casa Branca. Depois do norte-americano reduzir drasticamente a importação de aço do Brasil (no último trimestre cairá de 350 mil para 60 mil toneladas), o que fez o subserviente atleta do Planalto? No último dia 12, para ajudar o comparsa em campanha de reeleição, liberou que os “States” vendam de imediato para cá, sem pagar nenhuma taxa ou imposto, mais 187,5 milhões de litros de etanol. Os produtores brasileiros serão muito prejudicados, porque estão com estoque de álcool bem acima da média, devido à redução de consumo, mas o desgoverno do mito justifica dizendo que “quem sabe, os americanos compensem no futuro comprando mais açúcar”.

Já que citamos os Estados Unidos, ainda que para falar daqui, é do importante The New York Times matéria de página inteira intitulada “Um negócio familiar: investigação por corrupção ameaça Bolsonaro do Brasil”. Não é preciso comentar a reportagem, o título já é suficiente.

Mas não são só da família os casos “pitorescos”. Exemplo é o do advogado Fernando de Magalhães Furlan, ministro de Indústria e Comércio Exterior e presidente do Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência, durante o governo Dilma Rousseff. Filmado por câmeras de segurança furtando cones do estacionamento do Edifício Buriti na rica quadra 300 de Brasília, após registro de queixa devolveu os cones dizendo que apenas os pegou emprestado para ensinar baliza à filha. Quem furtar um carro pode devolver depois com a mesma “justificativa”? Ou seria questão para o Supremo Tribunal Federal, onde agora Furlan é assessor jurídico com salário acima de R$ 25 mil?

E o desembargador paulista Eduardo Almeida Rocha de Siqueira, que enfrenta 43 representações disciplinares por todo tipo de ação ordinária? Afastado preventivamente com vencimentos e penduricalhos acima de R$ 50 mil por mês, deve ser severamente punido, ora vejam só, com aposentadoria compulsória: não precisará fazer mais nada na vida, a não ser continuar agindo de forma desenfreada, acumulando mais processos (quem sabe queira figurar no Guinness World Records) e recebendo religiosamente o altíssimo salário pago com nossos impostos.

Também envolvendo “dim-dim” e Poder Judiciário: em derradeiro ato como presidente do Conselho Nacional de Justiça, sua excelência Dias Toffoli determinou que tribunais comprem um terço das férias de juízes federais e do trabalho, visto que passam por situação difícil e não usufruem de direitos iguais aos trabalhadores comuns que podem vender parte das férias. Para pensar: além de inúmeros recessos, os juízes que serão beneficiados gozam 60 dias de férias e, sem contar penduricalhos, têm salário acima de R$ 33.700,00. Quantos trabalhadores comuns o leitor conhece que passam semelhantes “dificuldades”?

*Sergio Prates
Jornalista

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