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Coronavírus e fake news: dois problemas graves que precisam ser combatidos

Você já recebeu uma notícia por alguma rede social e repassou o material adiante sem checar sua veracidade? É provável que já tenha feito isso e ajudou, mesmo que de forma inconsciente, a viralizar uma fake news. Segundo uma pesquisa feita pela Kaspersky, empresa global de cibersegurança, 62% dos brasileiros não conseguem reconhecer uma informação falsa.

Nesse momento de pandemia da COVID- 19, as notícias falsas são ainda mais perigosas. Um estudo desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontou que 73,7% das informações inverídicas sobre o coronavírus circularam pelo aplicativo WhatsApp. Outros 10,5% foram publicadas no Instagram e 15,8% no Facebook.

O fato é que com o avanço tecnológico e a velocidade com que as coisas percorrem o mundo, não é difícil ser enganado por uma fake news. Elas estão presentes nos mais diversos segmentos da sociedade. O compartilhamento desses conteúdos enganosos favorece a desinformação. Para falar do impacto disso em nosso cotidiano, o Edição do Brasil conversou com Rafael Faben, advogado especialista em direito digital e proteção de dados pessoais.

O que é fake news? Quando surgiu esse movimento?

Quando analisamos o termo em uma tradução literal, significa uma notícia falsa. Elas são elaboradas por pessoas de má índole e veiculadas em massa, criando uma situação como se aquela informação fosse verdadeira, seja de cunho político, religioso, saúde, esporte e etc. Esse tipo de conteúdo faz com que todos creiam quase que de forma inequívoca, inclusive, podem influenciar a opinião pública. O fenômeno atinge muita gente, pois, ao receber uma fake news, os indivíduos compartilham com grupos de amigos, que, por sua vez, também enviam para outros.

Embora o assunto seja extremamente atual, as fakes news remontam de muitas décadas atrás, mas não existe uma data definida de quando isso começou. Elas ganharam mais intensidade em 2016, durante a campanha presidencial nos Estados Unidos. Segundo consta, houve disseminação de informações falsas sobre a candidata Hilary Clinton, o que a prejudicou e culminou com a eleição de Donald Trump.

Onde elas são mais comuns hoje em dia?

Como temos mais facilidade em acessar e transmitir informações, seja por aplicativos de conversa ou redes sociais, a forma como as pessoas se comunicam favorece a disseminação pelo meio virtual. Hoje, recebemos uma grande quantidade de notícias verdadeiras e de fontes confiáveis em grupos de WhatsApp, mas também tem uma parte que são falsas. As mídias digitais potencializaram esse fenômeno, porque na ânsia de compartilhar um fato novo, muitos acabam por não checar a veracidade antes da publicação. Isso faz com que as fake news sejam passadas adiante.

Quais as consequências que uma fake news pode causar?

Os prejuízos são incalculáveis, pois ao propagar uma notícia falsa sobre determinada pessoa ou empresa, mesmo que de forma inconsciente, você faz com que essa mácula acompanhe a vida do indivíduo por muitos anos. O fato é que quando arremessamos uma pedra não temos mais condições de segurá-la. O estrago que ela pode causar, muitas vezes, não é passível de conserto. Não adianta se retratar posteriormente, porque os prejuízos já foram causados.

Ao transmitir uma fake news em larga escala, leva muitos a acreditarem na informação e até fazerem justiça com as próprias mãos, ainda mais se os ânimos estiverem exaltados. Há um tempo tivemos um exemplo disso que acabou em tragédia na cidade de Guarujá, em São Paulo. Um boato sobre uma suposta mulher que sequestrava crianças para atos de magia negra foi disseminado. A dona de casa envolvida foi linchada pela população e veio a óbito.

Quais os perigos de uma fake news durante a pandemia?

Como todos estão sedentos por informações de cura, medicação, vacina que possa diminuir as consequências do coronavírus ou dar imunidade à doença, a população acaba acreditando em qualquer notícia. Temos visto inúmeras teorias sobre chás, alimentos ou remédios milagrosos que prometem tratar a COVID-19. Quando esses conteúdos são disseminados e as pessoas acreditam fielmente nisso e seguem a recomendação, pode ser que o organismo não tenha uma reação positiva e resulte até mesmo em morte. Quem deve dizer o que é bom ou não são os médicos e não as publicações de redes sociais ou aplicativos de mensagens.

Existe alguma lei que criminalize quem crie ou repasse informação falsa?

No Brasil não existe uma legislação específica que trata sobre o assunto, mas há projetos de lei em tramitação no Congresso. O que nós temos são alguns dispositivos legais que punem quem dissemina fake news. Por exemplo, dependendo da situação a pessoa pode ser processada por injúria, calúnia ou difamação. Também existe um artigo trazido pela Lei das Contravenções Penais que quando a notícia causa uma situação de pânico ou alarme, o indivíduo pode ser processado criminalmente com base nesta norma.

Muitos pensam que a internet e as redes sociais são terras sem lei. Hoje é possível localizar quem pratica esses atos?

Existe uma expressão no meio digital que é o chamado “leão da internet”. É aquela pessoa que acessa a web e propaga seu ódio para todos nas redes sociais, mas quando é flagrada no ato pela polícia diz que não era essa a sua intenção. Atualmente, existem ferramentas de tecnologia e segurança da informação na maioria das delegacias, principalmente, as que lidam diretamente com crimes virtuais. Elas permitem que o indivíduo que propagou a primeira notícia falsa, consequentemente sendo compartilhada por outros milhares, seja localizado.

Um dos exemplos é a fake news que circulou na internet sobre estarem enterrando caixões sem corpos e cheios de sacos de areia e pedra em Manaus. Na verdade, ficou comprovado que a foto era uma tentativa de fraude nos seguros de vida de 3 anos atrás em São Paulo. A polícia conseguiu chegar até a responsável por plantar essa informação inverídica e ela está sendo processada criminalmente.

Como é possível identificar uma notícia falsa? Quais são as dicas?

O nosso papel como cidadão ao receber uma notícia é verificar se ela também está sendo veiculada em outros meios de comunicação. Isso porque as fake news têm essa característica de a informação ser divulgada em apenas um lugar. Além disso, devemos nos atentar para eventuais erros de ortografia, sendo mais um indicativo de que pode ser falsa. Jornalistas profissionais também podem falhar, mas isso é menos comum.

Entre outras dicas, analisar se a matéria não está sendo tendenciosa demais, pois a imprensa publica reportagens de forma imparcial. O Google possui ferramentas para verificação da veracidade. Nesse momento de pandemia, o próprio WhatsApp tem um recurso que permite analisar se informações sobre a doença são falsas. A checagem é primordial para não sermos enganados e nem compartilharmos fake news.

O papel do jornalismo é ainda mais essencial nesse momento?

É um papel de suma importância. Os veículos de imprensa passam informações concretas, checadas e apuradas e com base em dados. O jornalismo também desempenha a função de revelar casos de notícias falsas, conforme temos visto nos telejornais. Ele tem sido uma ferramenta essencial para que uma fake news não seja disseminada e que se plante a cultura do compartilhamento apenas de elementos verídicos.

Daniel Amaro
Formado em jornalismo, Daniel tem 25 anos e possui experiência em assessoria de comunicação voltado para produção de conteúdo para web. Ama escrever sobre política, cultura, economia e saúde. É apaixonado por jornalismo investigativo e estudar inglês. É perseverante e adora desafios. Seu hobby preferido é viajar.