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Um ser devastador

Dez entre 10 especialistas em saúde pública de todo o mundo, mesmo com divergências pontuais em suas projeções, concordam que os efeitos do coronavírus continuarão ao menos pelos próximos 2 meses. Exagerada ou não, a estimativa corresponde à devastadora rapidez com que o vírus vem se disseminando por todos os países, apesar das precauções e das providências adotadas globalmente, que incluem desde o home office e as férias coletivas até a interrupção total das atividades habituais. Da mesma forma, 10 entre 10 economistas acreditam numa recessão mundial, da qual o Brasil não escapará: nosso Produto Interno Bruto (PIB), na melhor das hipóteses, terá crescimento zero, preveem.

É algo assustador que, ironicamente, faz lembrar o “Decameron”, obra de Giovanni Boccacio, escritor italiano do século XIII, sobre 10 casais de jovens que, fugindo da peste negra então assolando boa parte da Europa, refugiam-se numa montanha no norte da Itália, fora da zona de contágio, e ali passam 10 dias e noites contando histórias – quase sempre picarescas. Mas o que temos hoje diante de nós não enseja qualquer tipo de distração, mas sim, esforços para equacionar um gravíssimo problema – ao qual, aliás, o presidente da República não vem dando muita atenção. Chegou mesmo a desdenhá-lo publicamente.
O fato é que esta epidemia não é simplesmente mais uma, como tantas que aconteceram ao longo dos séculos, pois chegou quase de repente e se proliferou com incrível rapidez, afetando, no mundo inteiro, o dia a dia de empresas, de administrações públicas, de governantes e de pessoas – estas, hoje, praticamente reclusas em suas casas. É neste cenário que governos do mundo inteiro, inclusive o brasileiro, finalmente “acordaram” e vêm agora atuando com eficácia para informar e aconselhar, pelos meios de comunicação, as medidas necessárias para conter a disseminação.

Destaque-se, nisto, a atuação do ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, que em várias oportunidades vem utilizando os meios de comunicação para, de forma didática e com muita competência, esclarecer e dar orientações à população quanto aos procedimentos adequados para a preservação da saúde diante do atual surto. Já na área econômica coube ao ministro Paulo Guedes anunciar uma medida mais que oportuna: a injeção de R$ 147 bilhões na economia como forma de estimular a atividade produtiva e preservar empregos, além de medidas de alívio fiscal. Mas em meio a estas boas notícias veio também a da paralisação da reforma Tributária, por decisão da comissão mista que a examina no Congresso. Infelizmente, pois as simplificações propostas seriam importante fator de estímulo às atividades empreendedoras.

Na verdade, não há um único segmento econômico que não esteja em dificuldades, mas uma situação bem peculiar é a das companhias de aviação, que vem sendo obrigadas a cancelar muitos voos. De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), entidade internacional do setor, as receitas dessas empresas devem cair mais de 44 por cento neste exercício – um rombo de R$ 1,3 trilhões – por conta do já rotineiro cancelamento de voos devido à falta de passageiros e à decisão, tomada por diversos países, de restringir o número de voos em seus territórios. A Latam, por exemplo, suspendeu seus sete voos semanais entre São Paulo e Milão. Na verdade, o medo está acabando com o turismo – tanto doméstico quanto internacional.

Enfim, vivemos tempos difíceis, muito difíceis. E tudo por conta de um ser devastador que, na verdade, eu nem sei o que é, se animal ou vegetal. Mas seja lá o que for, vai passar. E sairemos desta, certamente, machucados, mas, sem dúvida, mais fortes.

*Engenheiro, presidente da Federação de Conventions & Visitors Bureau-MG, presidente do Conselho do Instituto Sustentar e vice-presidente da Federaminas