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20% dos brasileiros consideram aceitável fazer piadas de cunho sexual no trabalho

Crédito: Shutterstock

Apesar de suas particularidades, podemos afirmar que o ambiente de trabalho reflete as formas de poder e dominação que há na sociedade de uma maneira geral. Prova disso é que, segundo dados do levantamento realizado pela Ipsos e o Global Institute for Women’s Leadership, do King’s College London, em 27 países, no Brasil, 20% acham que piadas sexuais são aceitáveis, mesmo que sejam feitas no ambiente profissional. Se levarmos em conta apenas a opinião das brasileiras participantes do estudo, são 15% contra 26% dos homens.

No mundo, para 28% da população masculina essa prática é algo aceitável e apenas 16% das entrevistadas veem esse comportamento com naturalidade. A diretora da área de pesquisas qualitativas da Ipsos, Ana Claudia Malamud, ressalta que, no Brasil, 72% das pessoas que responderam a pesquisa consideram que há diferenças no tratamento entre os gêneros no trabalho. “Essas piadas reforçam estigmas, estereótipos e preconceitos. Por mais que contar piadas de cunho sexual ainda seja comum e aceitável, ela é repudiada pelo público feminino, portanto, deve ser compreendida como uma atitude desnecessária em qualquer local, ainda mais no ambiente de trabalho”.

Além disso, no mundo todo, 13% dos homens acham que é aceitável mostrar materiais com conteúdo sexual no ambiente de trabalho e somente 7% das mulheres ouvidas compartilham da mesma percepção. Somando os dois gêneros, uma em cada dez pessoas (10%) considera admissível essa atitude. Já no Brasil, esse número é mais alto, de 14%, sendo que a aceitação é maior entre os brasileiros do que com as brasileiras: 17% contra 11%. “Aqui temos uma clara percepção de que há diferenças entre homens e mulheres no ambiente de trabalho e isso reflete o machismo da sociedade”.

Assédio

O estudo também avaliou o posicionamento sobre fazer elogios não relacionados ao desempenho profissional. 67% acreditam que é aceitável elogiar um colega do gênero oposto por sua aparência ou roupa usada. A opinião dos brasileiros é quase a mesma: 65% consideram a prática normal.

O cenário muda levemente quando questionamos os entrevistados sobre elogiar roupas ou aspecto físico de colegas do mesmo sexo. No mundo, 71% consideram que é aceitável. No Brasil, são 68%. Ao compararmos as opiniões dos homens e das mulheres ouvidos no país, nota-se maior resistência masculina em tecer elogios a outros homens. 61% dos brasileiros estão confortáveis com esse comportamento, contra 73% das brasileiras.

Além disso, convidar um colega de trabalho para um encontro romântico é admissível para mais da metade (52%) dos homens entrevistados globalmente; menos da metade (41%) das mulheres, entretanto, faria o mesmo. No Brasil, a aceitação é de 55% entre os representantes do sexo masculino e de 50% entre as representantes do sexo feminino.

Para mudar esse cenário, Ana Claudia diz que é necessário aumentar o número de mulheres em posições de lideranças e cargos altos no governo e iniciativa privada. “Elas são a metade da população nacional, mas ainda são poucas no Congresso Nacional ou nos boards das empresas. Quando as mulheres ocupam esses lugares, elas inspiraram outras e atuam para atenuar os impactos dessa desigualdade. Apenas políticas públicas, aliadas a decisões assertivas, vão contribuir para essa mudança”.

Na pele 

Umas das mulheres que já sentiu o assédio e machismo de forma direta no ambiente de trabalho foi a engenheira civil Mariana Marques, 35 anos. Por estar em uma área que, historicamente, é masculina, ela conta que sofre com homens que ainda duvidam do seu potencial e até com algumas piadas sobre a sua aparência. “Trabalhava em uma construtora e lidava com homens em posição de chefia e subordinados a mim e confesso que não sei o que era pior, pois me sentia diminuída por ambos. Teve um episódio que me marcou: um dia, o botão do uniforme havia soltado durante o trajeto para o trabalho e não tinha como colocá-lo. Durante todo o dia, senti que eles prestavam mais atenção nisso do que no que eu falava”.

Mariana decidiu sair do emprego após um dos seus chefes a convidar para sair. “Mesmo tendo namorado, ele não se sentiu intimidado e me chamou para ir ‘tomar uma cerveja’ com ele. Resolvi pedir demissão no mesmo dia e, hoje, tenho uma empresa que presta consultoria. Apesar de ganhar menos, essa decisão foi fundamental para a minha saúde mental”, finaliza.