Home > Destaques > Por que Minas Gerais entrou em colapso após as chuvas de 2020?

Por que Minas Gerais entrou em colapso após as chuvas de 2020?

O ano de 2020 começou trazendo muita chuva para a região Sudeste. Minas Gerais tem sofrido com volumes exorbitantes e históricos de água dos últimos 110 anos, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Estima-se quenos 7 primeiros dias de fevereiro tenha chovido em média 181,4 mm de água, número que corresponde a 60% do esperado para o mês. Só em janeiro, choveu 942,3 mm, 183% a mais do que o esperado. O número é assustador se comparado com o volume total de chuva do ano passado: 998,8 mm.

As consequências das chuvas para Belo Horizonte e região metropolitana foram devastadoras. A capital mineira entrou em colapso e houve destruição de casas, avenidas, shoppings e demais lugares. Dados da Defesa Civil apontam que, até o momento, 57 pessoas morreram. Estima-se que 45 mil tiveram que sair de suas residências por estarem em perigo. O alerta de risco geológico segue devido ao encharcamento do solo urbano.

O cenário caótico, infelizmente, não é novidade. Em BH, basta chover que enchentes e deslizamentos se tornam comuns. Muitos criticam a topografia da cidade, apontam a falta de planejamento ou o fato de estar obsoleto. Mas qual será o real motivo? O Edição do Brasil conversou com o arquiteto e urbanista Sebastião Lopes  (foto), formado pela Universidade Federal de Minas Gerais e fundador da Arqsol Arquitetura e Tecnologia, para entender um pouco mais sobre o assunto. “Alguns esforços que foram feitos tornaram-se conflitantes. Encaixotar e cobrir córregos melhorou a mobilidade urbana, mas piorou a drenagem pluvial”.

Por que BH entrou em colapso após as chuvas de 2020?
Belo Horizonte tem cerca de 700 quilômetros de cursos d’água, sendo que mais de 200 são canalizados. Isso dificulta a absorção da água da chuva pelo terreno e aumenta a velocidade das correntezas. A rede de drenagem pluvial, que inclui o Rio Arrudas; Córrego do Acaba Mundo; Córrego do Leitão, entre outros, está no limite, o que dificultou atender o excesso pluviométrico dos últimos dias. Esses córregos e tubulações precisam ser redimensionados com novos parâmetros para funcionarem com uma efetiva e eficiente rede de drenagem pluvial que atenda toda a cidade.

Por que as enchentes viraram algo habitual na capital?
A cidade foi criada em 1897 e em 1900 já ocorreu sua primeira inundação. Nestes 123 anos, Belo Horizonte, que está situada em uma região de clima tropical de montanha, sempre foi impactada em diferentes datas por chuvas intensas, ocasionando enchentes de grande intensidade.

A precipitação pluviométrica, com o aumento de terrenos impermeáveis e o excesso de descarte irregular de lixo comprometeram ainda mais o problema na cidade.

Falta alguma coisa no planejamento da cidade? É um plano ultrapassado?
Todo plano diretor de uma cidade precisa ser atualizado periodicamente e em todas suas disciplinas técnicas. A cidade é um organismo vivo e está sempre mudando suas exigências urbanísticas. As variáveis que nortearam as definições e dimensões de avenidas, ruas, praças, jardins, do sistema de transporte (mobilidade urbana), do sistema elétrico e de drenagem pluvial, etc, são bem diferentes daquelas quando a cidade foi criada.

Não é um plano fracassado, mas pode se afirmar que é sucateado pelo poder público. Curiosamente, alguns esforços que foram feitos tornaram-se conflitantes. Encaixotar e cobrir córregos melhorou a mobilidade urbana, mas piorou a drenagem pluvial, por exemplo. Não observaram que a primeira coisa que devemos cuidar em uma cidade, como BH, é da infraestrutura física para segurança dos cerca de 3 milhões de habitantes.

Ainda há tempo de solucionar o problema?
Sempre existe tempo para recuperar o passado que não foi muito feliz para a cidade. Temos exemplo do grande investimento que foi feito na reconstrução do alargamento da Avenida Antônio Carlos. Com vontade política, um corpo técnico interdisciplinar e um grande aporte financeiro, haverá tempo para solucionar todos esses problemas urbanísticos que, inclusive, poderão piorar na medida em que o tempo vai passando.

Se não houver alterações, o que pode acontecer com Belo Horizonte nas próximas chuvas?
Com certeza mais inundações, mortes e a destruição da malha urbana, apesar de todo esforço e dedicação da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros, que sempre nos surpreendem com ações e atitudes de verdadeiro heroísmo.
A ocupação desordenada das encostas e das margens de rios, córregos e ribeirões da capital mineira e cidades vizinhas vão provocar mais ocorrências, que prejudicarão cada vez mais a vida dos belo-horizontinos.

Quanto tempo poderia levar a implantação de um novo planejamento para a cidade? Na sua opinião, tirar um projeto tão grande do papel é possível?
Com um plano diretor corretivo, elaborado por uma equipe interdisciplinar (profissionais de diferentes áreas técnicas), que tenha como premissa a valorização da história da cidade e dos seus valores culturais, do seu patrimônio arquitetônico e urbanístico, será possível estimar com precisão o tempo necessário para implantar as correções e atualizações necessárias de todo os sistemas.

É preciso acreditar que é possível tirar do papel este projeto tão grande quanto importante para Belo Horizonte. Temos, no Brasil, um exemplo a ser seguido que é Curitiba, que já está vivendo esse processo de correção e atualização de todas as disciplinas técnicas de sua malha urbana.

Seria um investimento grande para a capital?
Todo investimento na urbanização de uma cidade como Belo Horizonte depende de grandes montantes financeiros que devem e podem ser aplicados dentro de um cronograma a ser executado por partes.

Nat Macedo
Belo-horizontina, 22 anos. Graduanda em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio de Sá, fez cursos de Consultoria de Imagem e Design de Moda. Há 3 anos criou um blog voltado para o público feminino. Interessada em assuntos relacionados à minoria, gosta de dar visibilidade as pequenas causas voltadas a inclusão e empoderamento destes nichos.