Home > Opinião > Fim de ano nem sempre é de festa e pode trazer solidão e tristeza

Fim de ano nem sempre é de festa e pode trazer solidão e tristeza

O emocional de muitas pessoas costuma ficar abalado pelas comemorações de fim de ano. Para boa parte da população o sentimento é de alegria, mas o período também faz aflorar a tristeza, angústia e solidão para alguns. Para se ter uma ideia da dimensão dessa realidade, historicamente, a procura por atendimento no Centro de Valorização da Vida (CVV) aumenta cerca de 20% em dezembro. Para falar sobre o assunto, o Edição do Brasil conversou com Ordália Mendes Soares, voluntária e porta-voz do CVV, em Minas Gerais, há 23 anos.

Por que o fim de ano mexe com algumas pessoas?
Isso se deve, ao fato, dos indivíduos se lembrarem das pessoas queridas que já não estão por perto. Elas sentem falta e possuem uma dificuldade em conviver com essa situação, fora que, nessa época do ano, o emocional é sempre mais aflorado. As pessoas se sentem mais sozinhas e ficam carentes. Tem ainda a questão dos planos que foram feitos e não colocados em prática, problemas financeiros, familiares ou no trabalho. Para se ter uma noção, o atendimento telefônico do CVV recebeu, apenas no dia 16 de dezembro deste ano, mais de 12 mil ligações.

As redes sociais contribuem para isso?
Se acessam muito as redes sociais ou até mesmo assistindo televisão, as pessoas podem ter a sensação de que todos à sua volta estão felizes e rodeados de amigos, enquanto elas passam por momentos difíceis. Isso pode atrapalhar bastante nessa época de Natal e Ano Novo. Não procure focar no virtual ou no que os outros estão fazendo, é muito melhor conversar com alguém próximo.

Como seria possível ajudar?
Acredito que empatia é a melhor coisa que uma pessoa pode oferecer a outra nesse período. Não com a finalidade de sentir a dor do outro, mas de tentar compreendê-la sem pré-julgamentos e críticas. Isso pode trazer conforto e a percepção de que se é respeitado e querido. É comum para alguns, na tentativa de ajudar, dizer que aquela situação vai passar, não é nada e tem coisa muito pior. Essas afirmações podem levar a pessoa a se sentir ainda menos capaz de superar suas dificuldades ou a se afastar emocionalmente.

Qual a importância de buscar auxílio?
Quando a pessoa está passando por um momento difícil, sente necessidade de conversar e desabafar. Mas, ela não quer fala com amigos, parentes ou pessoas mais chegadas. Nesse aspecto, o CVV é importante, pois ela não precisa se identificar e consegue ser ouvida com total respeito e sem julgamentos. A partir do momento em que conta o que está acontecendo, ela mesma acaba fazendo uma reflexão e encontrando uma saída para seu problema. Nós não damos conselhos, apenas acolhemos com todo carinho e cuidado.

Como funciona o CVV?
O Centro de Valorização da Vida é uma organização sem fins lucrativos que, há mais de 55 anos, presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção ao suicídio. O contato com o CVV é feito pelo telefone 188, sem custo de ligação e funcionamento 24 horas. Ainda pode ser feito pelo site www.cvv.org.br, por chat ou e-mail. Também temos 162 postos físicos de atendimento espalhados pelo Brasil e mais 41 em processo de instalação.

Fazemos um acolhimento com empatia para auxiliar as pessoas em qualquer situação da vida. Para conversarem abertamente. O voluntário gasta o tempo necessário em cada ligação para que a pessoa possa desabafar. Cada atendimento é único e pode levar uma média de 30 minutos.

Quais as mudanças mais perceptíveis nos últimos anos?
A solidão é uma coisa que nunca muda. Geralmente, a pessoa que liga para o CVV está sempre sozinha. Os adultos têm mais dificuldade de conviver com as perdas, enquanto os mais jovens ligam devido ao bullying. Também notamos um crescimento na procura pelos serviços. De 2016 para 2017, por exemplo, o número de atendimentos dobrou de 1 milhão para 2 milhões em todo o país. Esse salto pode ser devido ao maior debate sobre prevenção do suicídio na sociedade e pela expansão do telefone 188 para todo o território nacional.

Daniel Amaro
Formado em jornalismo, Daniel tem 25 anos e possui experiência em assessoria de comunicação voltado para produção de conteúdo para web. Ama escrever sobre política, cultura, economia e saúde. É apaixonado por jornalismo investigativo e estudar inglês. É perseverante e adora desafios. Seu hobby preferido é viajar.