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Não há nada tão ruim (boçal) que não possa piorar

Em maio deste ano escrevi que se o Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) fosse vivo, talvez trocasse o título e lançasse um novo livro da série Festival de Besteiras que Assolam o País (Febeapá) para Festival de Absurdos que Assolam o País (Feabapá). Errei. Poderia ser mantido o Febeapá, apenas substituindo o “B” de Besteiras do título original pelo “B” de Boçalidades – que, para quem possa achar a palavra forte demais, é o termo que apenas define “ação expressa de forma inconveniente, por meio de arrogância, futilidade, ignorância ou grosseria desnecessárias”. Vejam só algumas boçalidades dos últimos dias:

Nomeado presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Nascimento de Camargo, afirmou: 1 – “Racismo no Brasil é como nutella. A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda. A escravidão foi benéfica para os descendentes. Negros do Brasil vivem melhor do que os negros da África”. 2 – No Dia da Consciência Negra: “O feriado precisa ser abolido nacionalmente por decreto presidencial. Sinto vergonha e asco da negrada militante. Se acham revolucionários, mas não passam de escravos da esquerda. 3 – Sobre a morte da vereadora Marielle Franco, após taxar de “inacreditável que tenham tentado ligar nosso presidente ao assassinato dessa mulher sem valor”: “A vereadora assassinada do PSOL é um eloquente exemplo de que os negros, e por extensão os brasileiros, não devem ser. É preciso que Marielle morra, só assim ela deixará de encher o saco”.

O desprezo desse indivíduo encarna o pior e mais estúpido preconceito contra sua própria raça, lembrando a patética figura medíocre de judeus que aderiram ao nazismo. Sobre tão lamentáveis posições se insurgiu de maneira firme o músico e produtor cultural Oswaldo de Camargo Filho (conhecido como Wadico Camargo): “Tenho vergonha de ser irmão desse capitão do mato, nomeado presidente da Fundação Cultural Palmares”. Capitães do mato eram os serviçais negros que se encarregavam da captura de escravos fugitivos para ganhar recompensas. Vale lembrar que Oswaldo de Camargo (pai) é um dos maiores expoentes da literatura negra, com obras traduzidas para o alemão, francês e espanhol e que está, aos 83 anos, arrasado com a postura desqualificada do filho que comanda (com a clara intenção de destruir) a Fundação Cultural Palmares, criada para preservar os valores culturais e sociais da influência negra.

É lamentável, mas racistas da pior espécie, como o escolhido presidente da Fundação Cultural Palmares, possuem adeptos. Vejam só a frase do (rapidamente afastado) ouvidor do Ministério Público do Pará, procurador de Justiça Ricardo Albuquerque: “O problema da escravidão no Brasil foi porque o índio não gosta de trabalhar. Até hoje”.

Quem adora falar o que não deve é o capitão-presidente. Sempre à procura de inimigos, sejam reais ou imaginários – tanto faz, resolveu até atingir os patrícios do seu ídolo maior, o presidente Trump. Não é que sobrou para um famoso ator de Hollywood, sobre o qual disse/acusou: “Leonardo DiCaprio é um cara legal, né? Dando dinheiro para tacar fogo na Amazônia”. Tudo porque o ator também é um filantropo, que ajuda financeiramente organizações não governamentais. E, para não faltar um inimigo predileto, ampliou sua guerra imperial à imprensa: “A Folha de São Paulo não serve nem para forrar galinheiro. Recomendo a todos do Brasil que não comprem o jornal. Não consumo produtos de empresas que anunciam na Folha. Qualquer anúncio que faz na Folha (sic) eu não compro aquele produto e ponto final”.

Ainda do clã Bolsonaro… a senhora Heloísa, esposa do filho Eduardo, postou no Instagram que “passa perrengues” (perrengue significa ruim, frouxo e desalento) com o salário de deputado federal do marido. Tadinha: o ex-futuro embaixador nos Estados Unidos só ganha R$ 33,763,00 mais R$ 4.253,00 de auxílio moradia e ainda outros R$ 45.612,00 por mês para alimentação e outras despesinhas pessoais, totalizando míseros R$ 83.628,00. Ela lamentou que numa viagem ao Havaí chegou a ter que economizar almoçando num mercadinho… e que ficou “até mais magrinha”. Taí, se um dia a madame perrengue resolver dançar ballet para ganhar um extra, pode propor um “Pas de Deux” com o Mr. Miserê – o procurador do Ministério Público de Minas Gerais, Leonardo Azeredo dos Santos, que até toma calmantes para sobreviver com apenas a média mensal de R$ 68.275,34 (num mês melhorzinho, com gratificações comuns, já recebeu R$ 145.670,45, para aliviar um pouquinho a sua aflição).

Também do império: filhos príncipes/congressistas foram, no último fim de semana, à milionária Abu Dhabi, ficar no paddock da Fórmula 1, para tentar convencer o pessoal da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) a realizar o sonho do papai de tirar o GP de Fórmula 1 do Brasil de São Paulo e mudar para um novo autódromo no Rio, a ser construído no antigo campo de treinamento do Exército e que vai custar a “bagatela” de mais de R$ 1 bilhão (num país “podre de rico” como o nosso, onde ninguém passa fome – segundo o capitão-presidente, é dinheirinho de miserê e perrengue). Para mim, é de embrulhar o estômago!

*Autor: Sérgio Prates

Jornalista Reg. 1229 – MG / e-mail pratesergio@terra.com.br