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Stalking: perseguição excessiva rouba privacidade e instaura medo

A Netflix mal anunciou a estreia da segunda temporada da série “You” (Você, em tradução) e o assunto central da trama voltou a ter evidência na mídia: stalking. O termo, em inglê,s designa uma forma de violência por meio de perseguição excessiva que rouba a privacidade da vítima e a coloca em situação de medo.

No seriado, Joe Goldberg, interpretado pelo ator Penn Bagley (Foto), se apaixona por Guinevere Beck (Elizabeth Lail), uma aspirante a escritora. Joe começa a seguir os rastros de Guinevere nas redes sociais. No entanto, o desejo em saber mais sobre a vida dela faz com ele se transforme em um stalker (perseguidor).

Para o psiquiatra e membro da diretoria da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme) Marcelo Kimati (foto), essa romantização pode ser proveniente da sensação de rejeição, abandono e um certo sofrimento das relações.
Ele acrescenta que o stalking pode ter relações com crimes como o feminicídio. Dados do SOS Mulher mostram que mais de 1,7 mil casos de stalking foram relatados, mas pouco foi feito sobre o assunto. Ao todo, 29 mortes e 986 agressões foram registrados após episódios de perseguição, no ano passado.

O que é stalking?
É o ato de se ter uma postura invasiva e tentar uma aproximação com alguém de forma abusiva. Quem atua dessa forma é chamado de stalker. É importante ressaltar que esse fenômeno não está restrito à era digital. Ele existe desde a década de 80 e, a partir dos anos 90, começou a se compreender uma necessidade de definir o termo, assim leis foram criadas em diversos países.

Quais podem ser as consequências do stalking?
Esse ato sempre será um preditor de violência. Desde a década de 90, algumas características se mantêm, por exemplo, 75% de pessoas que tiveram uma relação já foram perseguidas. Além disso, quase 80% das vítimas são mulheres, quase 90% dos stalkeadores são do sexo masculino, por isso, é preciso observar que os crimes de feminicídio tem, na maioria das vezes, o fator stalker.

Estima-se que 55% das mulheres já foram stalkeadas antes de sofrerem algum tipo de violência, quase 50% receberam telefonemas ou algum tipo de contato indesejado. Mais de 40% das pessoas já se depararam, em algum momento, com o perseguidor as esperando em algum lugar.

Em longo prazo, o stalking pode trazer consequências severas para a saúde da vítima, principalmente, provenientes de um estresse pós-traumático, visto que há sempre muito medo e sofrimento.

Quais as características do stalking?
A prática precisa ser repetitiva. Alguns países determinam, inclusive, a quantidade de vezes que a pessoa é perseguida para ver se diz respeito a um stalking. De um modo geral, não é algo pontual, mas se repete ao longo de, pelo menos, 30 dias.

Muitos pensam que se trata apenas do momento em que um casal termina e um tenta contato com o outro. O stalking vai além disso, o comportamento tira a paz da vítima. Com o advento da internet, esse tipo de ação passou a ficar ainda mais comum.

O que leva uma pessoa a perseguir outra dessa forma?
No período da pré-internet, era associado a um fenômeno psiquiátrico que entendemos como delírio amoroso e que leva a pessoa a acreditar que tem alguma relação íntima e especial, principalmente, com pessoas públicas.
Contudo, essas características não são mais predominantes. Hoje, existe algumas tentativas de categorização dos stalkers em quatro grupos: o ressentido, que procura acompanhar a vida da outra pessoa como um referencial de vingança e isso pode envolver uma mistura de relação afetiva; o perseguidor, que busca uma maior intimidade, o que é facilitado na era digital. Nesse caso trata-se de uma pessoa tímida e que usa da web para se aproximar de alguém; os stalkers que se sentem rejeitados e passam a perseguir e, por fim, os predadores que, geralmente, faz com que a pessoa sinta que tem poder e controle sobre o outro.

A pessoa precisa, necessariamente, ter uma relação com a outra?
Estima-se que 65% a 80% dos stalkings estejam relacionados a um envolvimento de duas pessoas que tiveram alguma relação íntima, anteriormente. Mas, tem um grupo que procura intimidade com outras pessoas e acabam por persegui-las para conseguir isso. Há também criminosos sexuais que perseguem suas vítimas na internet. Mas, o stalking é predominantemente entre pessoas conhecidas.

No cenário atual, vemos o ato vinculado ao fim de um relacionamento. O fenômeno envolve relações intensas, na qual um dos lados tem necessidade de domínio. É um comportamento compulsivo cujo ciclo é difícil de interromper, pois, não ter controle é uma experiência complexa para qualquer um.

“You”, da Netflix abordou o tema e muitas pessoas romantizaram o personagem. Por que isso acontece?
Como é um fenômeno que envolve a sensação de rejeição, abandono e um certo sofrimento, é possível que as pessoas tenham empatia em relação ao stalkeador. Esse sentimento diz respeito às vivências de cada um. Hoje, as rupturas de relações, com as redes sociais, implicam muito mais sensações e boa parte do feminicídio é proveniente disso. As redes mostram tudo que o stalkeador precisa ver e, mesmo sem querer, gera tal sofrimento a ponto dele começar o stalking.

Nat Macedo
Belo-horizontina, 22 anos. Graduanda em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio de Sá, fez cursos de Consultoria de Imagem e Design de Moda. Há 3 anos criou um blog voltado para o público feminino. Interessada em assuntos relacionados à minoria, gosta de dar visibilidade as pequenas causas voltadas a inclusão e empoderamento destes nichos.