População negra é a que mais empreende e a que menos fatura - Edição do Brasil
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População negra é a que mais empreende e a que menos fatura

De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a taxa total de empreendedores (TTE) negros é de 40,2%, enquanto a de brancos é de 35%. Mas, mesmo sendo maioria dos empreendedores e da população brasileira, os negros faturam menos em seus empreendimentos.

Em relação ao faturamento anual, a pesquisa revelou que quase 80% dos empreendedores negros faturaram até R$ 24 mil por ano. Por outro lado, o percentual de empreendedores brancos com faturamento acima de R$ 36 mil foi de 13,6%, quase o dobro dos negros (7,7%). Os empreendedores iniciais negros com renda familiar de até dois salários mínimos são a maioria (54,2%), enquanto que entre os brancos a proporção é de aproximadamente um terço (37,5%). No grupo daqueles com renda familiar acima de três salários mínimos, 22,9% são negros e 42,4% brancos. Ou seja, o estudo constata que é maior a proporção de empreendedores negros que possuem renda familiar mais baixa do que a dos brancos. E também que é maior a proporção de empreendedores brancos que possuem rendas maiores.

Uma das razões estudadas para explicar esse panorama é o fator que leva essas pessoas a empreenderem que, normalmente, são dois: oportunidade ou necessidade. “A motivação é um aspecto extremamente relevante e que pode ser decisivo para definir o sucesso do negócio”, afirma o presidente do Sebrae, Carlos Melles.

Segundo o analista do Sebrae Minas, Rafael Gregório, empreender por oportunidade é quando se identifica algum nicho no contexto de negócios que se possa investir e que em médio ou longo prazo traga retorno. “Já por necessidade é quando a pessoa precisa pagar as contas e empreender urgente. Então, ela não faz uma grande pesquisa, apenas começa logo”, explica. Em 2018, entre os negros, 55,5% empreendiam por oportunidade, já entre os brancos a proporção era de 71,5%, 16 pontos percentuais a mais, alcançando o maior nível de diferença na proporção de negros e brancos da série histórica desde que o estudo é feito.

A desigualdade no nível de escolaridade também é apontada como razão para o insucesso de uns e sucesso de outros. A proporção de pessoas com nível superior completo, entre os negros, é sempre metade que a verificada entre os brancos. Na TTE, por exemplo, chega a 12,8% no caso dos brancos e a 6,6% no caso dos negros. A pesquisa também mostra que uma proporção maior de empreendedores negros (51,3%), deixou de concluir o ensino médio, contra 41,5% dos brancos. “O acesso ao conhecimento no meio do empreendedorismo é fundamental. Existe a parte de pensamento estratégico e gestão. Quando se tem acesso à informação sobre critérios e ferramentas específicas sobre como inovar e prosperar, a formação vai impactar bastante”, acrescenta Gregório.

Para entender o cenário atual, é preciso retroceder recentes 131 anos. “É uma questão histórica. O Brasil é um país que partiu de um processo de escravização da população negra e que, após a abolição, não houve políticas afirmativas para reinseri-la dando condições para que ela chegasse em equidade a população branca. Quando você dá condições de financiamentos de terras aos imigrantes brancos e para os negros condições nenhuma, vemos que havia políticas, mas que elas favoreciam apenas um grupo”, diz Gregório.

Para o analista, o acesso ao crédito também atua como um preconceito velado. “Você vai até um banco, mas não tem uma política afirmativa que me dê condições de ter aquele crédito. Imagine se moro em um barracão numa periferia e uma das condições do empréstimo é que eu tenha um imóvel próprio, aquilo já influencia na concessão do capital. Não é que o critério no banco é diretamente racista, mas se uma das exigências é ter um imóvel e a região influencia, então, estou excluído”.

Para o analista, as organizações precisam entender seu papel na mudança dessa desigualdade no ambiente empreendedor. “É fundamental promover ações afirmativas que deem condições para que o empreendedor negro também enxergue oportunidades e que tenha a capacitação qualificada”, encerra.