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Coveiros relatam preconceito e esquecimento da sociedade com relação à profissão

Welton Pedro: “Me sinto feliz aqui dentro, gosto do meu trabalho e o faço com amor” - Crédito: Neilton Sávio

“É um profissional que não existe para o mundo, mas todo ser humano vai embora pela mão dele. Acho que devia ser mais valorizado. Nós somos esquecidos”, reflete Welton Pedro Rocha, 42, coveiro há 23 anos no Cemitério da Paz, a maior necrópole da capital com 545.548 inumados, segundo os dados mais recentes da Prefeitura de Belo Horizonte.

Mesmo exercendo uma profissão nobre e que possibilita à família uma despedida digna, coveiros relatam sofrer preconceito devido ao trabalho. “Quando me veem saindo daqui e vou para o ponto de ônibus, ninguém fica perto de mim”, diz Valdívio dos Santos, 43, sepultador há 3 anos. No meio social, também se sente discriminado. “Você fala que é coveiro e a pessoa solta um ‘Nossa senhora!’ como se você fosse um traficante. Para mim, é a melhor coisa que tem, um trabalho tranquilo que não me dá tormento nenhum”, completa.

crédito – Arquivo Pessoal
crédito – Arquivo Pessoal

Colegas de profissão, Rocha e Santos têm relatos parecidos sobre as reações das pessoas quando falam sobre o ofício. “As pessoas têm a mente pequena. Elas difamam muito a imagem de um coveiro, ou melhor, essa profissão nem existe para sociedade. A última pessoa que pensam é neste profissional. Mas, o que acham lá fora, não me importa. Minha família me entende e aceita meu emprego. Me sinto feliz aqui dentro, gosto do meu trabalho e o faço com amor”, conta Rocha.

Os dois têm histórias semelhantes de como se tornaram sepultadores: necessidade. Após um acidente com o caminhão que trabalhava, o então motorista Santos precisava aguardar 3 meses para o conserto do veículo. Mas, como as contas não podiam esperar, disse para minha esposa que aceitaria um trabalho como coveiro por esse período e sairia. “Falei para ela: me adaptei e vou ficar lá. Faz 3 anos que estou aqui”, conta sorrindo.

Além do enterro, o dia a dia de um sepultador envolve a exumação de corpos, que costuma ser o primeiro teste a um candidato à função. “Para ser coveiro, não precisa de curso, necessita de coragem. O primeiro teste é fazer uma exumação. Fez três, passou”, conta Rocha. Segundo ele, há quem não passe. “Teve um que me olhou assim e disse ‘isso não é para mim, não tem um serviço mais leve?’ Não, o serviço é esse”, ri ao lembrar.

A exumação é feita quando um cadáver precisa ser retirado do local que está enterrado, seja por ordens judiciais (como no caso de investigações criminais ou de paternidade), ou ainda por questões relacionadas à administração do cemitério ou à lotação máxima do jazigo. Em média, são realizados 20 sepultamentos e 8 exumações por dia no Cemitério da Paz.

No entanto, 23 anos de experiência não blindam o coveiro que começou na profissão aos 19. Para Rocha, casado, pai de duas filhas e avô de uma neta, sepultamentos de crianças são os mais difíceis. “Sou pai. Meu coração parte. É igual quando estou sepultando um idoso e o outro idoso que ficou está chorando. É um sofrimento sincero. Prefiro ficar mais distante”, diz.

Apesar de não exigir um treinamento, o ofício exige sensibilidade para a hora mais difícil: o enterro. “Se deixar por conta da família, eles não vão permitir. Você precisa saber dialogar com os familiares, explicar que o momento chegou. Ainda mais aqui, um dos cemitérios mais movimentados de Minas Gerais. Tudo tem horário. Porém, tem que saber conversar direito. Às vezes, eles dizem que tem um parente chegando de longe, lógico que vamos esperar. Digo para ficarem à vontade e vou fazer os outros enterros. A pessoa não pode ser um brutamontes. Não é que ele tem que chorar em todo sepultamento, mas precisa se sensibilizar com a dor do outro”.

Descrente em histórias de terror que usam como cenário cemitérios, Rocha conta que seu único susto aconteceu no primeiro ano da profissão, ao abrir uma sepultura para exumar uma mulher que havia falecido há 5 anos. “Quando abri a urna, ela estava perfeita, intacta, ainda de maquiagem, uma jovem toda de branco. Foi um sacrifício para tirar essa cena da minha cabeça”.

A explicação para a conservação do corpo está no material da urna feita de zinco que, diferente da madeira, oferece uma vedação hermética que impede ação de micróbios. Além disso, o material é impermeável, à prova d’água e com durabilidade que pode chegar a 100 anos. Esse tipo de urna é usado para transportar um corpo por via aérea ou repatriar uma pessoa falecida.

Rocha, que começou a trabalhar no local em 1996, conta que só deixa a profissão ao se aposentar. “Levo para o lado do profissionalismo, é o meu ganha pão. Alguém tem que sepultar e sobrou para o coveiro. É minha função e vou fazer minha obrigação”.