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A triste realidade celeste

Lamentavelmente é preciso admitir que o Cruzeiro Esporte Clube atravessa uma de suas piores fases ao longo dos seus quase 100 anos de existência. Mergulhado numa conturbada crise administrativa e financeira, o clube celeste vê a cada rodada o fantasma da Série B se aproximar da Toca da Raposa. Os últimos dias (como de costume) foram ainda mais bombásticos nos bastidores do clube. Após a renúncia do diretor-geral Sérgio Nonato, de uma só vez, o presidente Wagner Pires de Sá afirmou publicamente que pretende antecipar as eleições para janeiro de 2020 e anunciou que o vice-presidente Itair Machado deixou o clube mineiro, após envolvimento em seguidas e graves denúncias. Com a saída de Machado, o futebol do Cruzeiro passa a ser comandado por Zezé Perrella, presidente do Conselho Deliberativo.

Em meio à crise política e financeira do clube mineiro, o presidente cruzeirense e Itair Machado são investigados pela Polícia Civil e pelo Ministério Público por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e falsificação de documentos. Há suspeita ainda de que os dirigentes tenham infringido regras de transferência da CBF e da Fifa.

Impossível não admitir que os problemas extracampo acabaram afetando o rendimento da equipe nos gramados. O time mineiro figura na zona de rebaixamento do Brasileirão. Ocupa no momento a 18ª colocação, com 22 pontos.

Ao investir muitos milhões com contratações, renovações de contrato e salários altíssimos, a diretoria repetiu a estratégia do ano anterior e apostou nas competições de mata-mata para gerar grandes receitas e brigar por títulos. Mas tudo deu errado. Em pouco mais de 5 meses, foi eliminado da Libertadores da América e Copa do Brasil. Atualmente, o clube já não tem mais de onde tirar dinheiro e atrasa os salários de jogadores e funcionários. Segundo informações de bastidores, já foi necessário o pedido de R$ 80 milhões em empréstimos para atenuar a situação.

A troca de técnicos tornou-se uma constante no Cruzeiro. Mano Menezes (até então um dos técnicos mais duradouros no futebol brasileiro) se firmou principalmente por causa dos resultados na Copa do Brasil, da qual ergueu as últimas duas conquistas. Mas o desempenho em campo nem sempre foi bem aceito pela torcida, e o treinador ficou ainda mais conhecido por dar um padrão extremamente defensivo à equipe, sem explorar muito a qualidade também disponível no ataque. Quando as vitórias ficaram escassas, ele foi demitido para a chegada de Rogério Ceni. Contudo, em menos de 45 dias, o treinador não resistiu aos maus resultados e também deixou o clube numa passagem considerada meteórica. Há quem diga que jogadores do elenco cruzeirense literalmente “fritaram” o treinador, por não concordarem que alguns “medalhões” ficassem no banco, em razão do péssimo rendimento em campo.

Para tentar tirar o Cruzeiro desta crise sem precedentes, o técnico Abel Braga aceitou o desafio de assumir o time celeste. Mas ao contrário do que se pensava, o treinador parece perdido. Tem um elenco muito velho nas mãos. Os atletas da base são raridade. Jogadores como Dedé e Henrique, ídolos da torcida, já não conseguem desempenhar um bom futebol.

Nos últimos 7 anos, entre as gestões de Gilvan de Pinho Tavares e Wagner Pires de Sá, o Cruzeiro faturou dois títulos brasileiros e duas Copas do Brasil. Mas mesmo com os títulos, a gestão de finanças do clube mostrou-se desastrosa. O Cruzeiro deixou o posto de time com menos débitos na elite do futebol brasileiro para se transformar em um dos líderes no ranking de devedores, com uma dívida estimada em R$ 520 milhões. Relatórios realizados por uma sindicância interna apontam que o clube celeste possuía uma folha de pagamento de R$ 12,7 milhões no fim de 2017. Já em abril deste ano saltou para impressionantes R$ 20,2 milhões.

Uma triste e dura realidade para um clube tão vencedor. O momento é de união. É hora dos grandes e ilustres cruzeirenses se unirem para tirar o Cruzeiro desta terrível situação. Devemos deixar as desavenças políticas de lado e nos unirmos em prol de um Cruzeiro que retome o caminho das vitórias. É preciso resgatar nossa dignidade. Afinal, o Cruzeiro é “gigante pela própria natureza”. Instituição maior que todos os dirigentes, funcionários e jogadores que passaram pelo clube até aqui.

Para tanto, devemos adotar uma política de austeridade. Fim dos altos salários para jogadores que não correspondem às tradições do clube. Mais investimento e valorização dos atletas de base. Eles são o futuro do nosso time. Exigimos dirigentes responsáveis e comprometidos com a história e grandeza do clube. Afinal, o Cruzeiro tem páginas heroicas e mortais. Queremos de volta o Cruzeiro tão combatido e jamais vencido!

 

*Desembargador do TJMG e Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo