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8 em cada 10 funcionários já viram discriminação no trabalho, mas só um terço relatou à empresa

Crédito: Pixabay

Você já presenciou ou vivenciou uma situação de discriminação no seu local de trabalho? Segundo uma pesquisa feita pela Kantar, empresa de Divisão de Pesquisa de Mercado, Insights e Consultoria, que ouviu mais de 18 mil pessoas de 14 países, incluindo o Brasil, não é raro que um trabalhador seja exposto a situações discriminatórias. Pelo contrário, 80% das pessoas relatam já ter vivido algo do tipo. Por outro lado, o comum é que essas pessoas – vítimas ou testemunhas – não se sintam à vontade em relatar o problema à empresa, já que apenas 1 em cada 3 declarou-se encorajada a levar o assunto ao seu departamento de Recursos Humanos (RH).

Na análise da advogada trabalhista Maria Inês Vasconcelos, o silêncio decorre de um comportamento incentivado pelas próprias empresas. “É uma cultura narcísica de preconceito e de acreditar que, sendo a relação de trabalho marcada pela subordinação, o trabalhador é uma propriedade da empresa. Contudo, rompendo com esse paradigma da coisificação e na tentativa de diminuir a exclusão, a coerção, a violência e todos os traços de preconceito, os trabalhadores estão cada vez mais atentos aos seus direitos e vêm fazendo denúncias individuais, relatando os assédios sofridos”, diz. Para a advogada, queixas particulares são a chave para que o Judiciário possa atuar.

O estudo também apresenta os dados divididos por gênero, orientação sexual e etnia. Entre as mulheres, 27% apontam que foram induzidas a sentir que não pertenciam ao seu local de trabalho. Já a proporção das que acreditam que ganham menos que colegas homens, em posições semelhantes, é de 20%.

Em sigilo, a social media Joana* conta que viveu há pouco mais de um mês uma situação que define como “discriminação e machismo”. Segundo a funcionária, que atua como freelancer in loco numa agência de comunicação, tudo começou quando seu superior a chamou para uma reunião em privado. “Logicamente, pensei que se tratava de alguma demanda. Mas ele me disse que, por questões de higiene, eu deveria ir para agência com a ‘depilação em dia’. Fiquei completamente sem reação na hora, mas ainda perguntei ‘você está falando de pernas e axilas?’, ele confirmou com muita calma, acrescentou que tinha a ver com clientes e mudou de assunto normalmente”, conta.

Para ela, a exigência ser direcionada a um gênero comprova o fator discriminatório. “O detalhe é que isso não está escrito em nenhum lugar e os homens que trabalham lá, que podem ir de regatas e bermudas, também têm pelos nos braços, pernas, axilas, cabelos longos e barba, mas no caso não é anti-higiênico?”, questiona a funcionária que diz ainda pensar sobre quais medidas tomar ou não.

Maria esclarece que existem várias frentes de combate ao assédio moral nas empresas. “Uma delas vem do próprio Judiciário que, recentemente, lançou uma importante cartilha com alertas de tipos de conduta. Observo ainda que a Constituição Federal tem como objetivo fundamental promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, idade e qualquer outra forma de discriminação. As dinâmicas de trabalho que acomodam essa violência são contrárias à Constituição. Não há lugar para a cultura da exclusão, alienação e vestígios antissemitas. Essa cultura eugênica e narcísica não encontra mais lugar na legislação brasileira”, afirma.

Ainda segundo o levantamento, a constatação que mais deve alertar os departamentos de RH brasileiros é relacionada ao bullying. O país é identificado com o maior nível de discriminação no ambiente de trabalho, ao lado de México e Cingapura.

Entre os trabalhadores LGBTQ+ ouvidos pela pesquisa, 24% dizem ter sofrido bullying no trabalho no ano passado. Além disso, 36% acreditam ter enfrentado obstáculos em termos de ascensão profissional devido à sua orientação sexual. A pesquisa mostra ainda que as pessoas LGBTQ+ ocupam apenas 2% das posições dentro do conselho de administração das empresas, contra 9% da força de trabalho global estimada.

Já na divisão por etnia, os dados mostram que 11% que se identificam como minoria acreditam que são tratados de forma muito diferente no trabalho por causa de sua etnia. Já 13% se sentem excluídos e 28% se notam ansiosos com frequência.


No Brasil…

… 41% afirmam que se sentiram desconfortáveis no local de trabalho no último ano

… 35% observaram discriminação negativa em relação a outras pessoas dentro da empresa

… 34% dizem enfrentar obstáculos em suas carreiras relacionados ao gênero, idade, etnia, orientação sexual, etc

… 28% observam que suas empresas precisam ser mais inclusivas e diversas do que são atualmente

… 22% dos funcionários sentem que as oportunidades não são direcionadas para as pessoas mais merecedoras


*A pedido da entrevistada, seu nome foi alterado