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Palhaço das Perdidas Ilusões e “Mr. Miserê”

Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Em 1937, Orestes Barbosa e Silvio Caldas compuseram “Chão de Estrelas”, música que contém a expressão “palhaço das perdidas ilusões” que, 82 anos depois, simboliza como se sente a maior parte da população consciente e honesta do nosso país. Não desmerecendo, é claro, a categoria do palhaço, profissional para o qual sinto grande admiração e profundo respeito. No início da minha carreira em televisão, tive o privilégio de “fazer escada” para a notável dupla Fred e Carequinha e de trabalhar ao lado do palhaço Moleza, personagem de Carlito Cerezo, meu particular amigo e excepcional adversário de memoráveis campeonatos de xadrez em Belo Horizonte.

O que chama atenção na estrofe da música são as “perdidas ilusões”. É comum criarmos fantasias em nossos pensamentos, nos recusando a aceitar verdades das quais não gostamos, ou por alimentarmos a tão comumente esperança de que nossos melhores sonhos se transformem em realidade. Normalmente não aceitamos enxergar que erramos em avaliações e atitudes, e que temos nossa parcela de culpa nas situações existentes que nos assustam.

O problema é que, quando se perdem as ilusões, fica ainda mais difícil aceitar o que está acontecendo mundo afora e cada vez mais perto da gente. O que deveria ser exceção à regra está ficando comum: malfeitores, golpistas e corruptos de toda ordem e qualquer categoria profissional; políticos despreparados; ministros e integrantes de alto escalão incompetentes (ou amedrontados), jornalistas sensacionalistas que se alimentam de fake news; médicos charlatões e, pasmem os que ainda não sabem/entenderam: integrantes da área da Justiça que primam por defender, aclamar, soltar e sei lá mais o quê para beneficiar os piores (maus) elementos da nossa combalida sociedade – tudo em nome da Lei, que teve seus artigos criados e aprovados ou de forma ditatorial ou por aqueles que foram escolhidos por iludidos eleitores.

No meio de tanta gente bizarra, há quem, talvez cego pelo poder, desconheça milhões de famintos e diga que ninguém passa fome no Brasil. Com jeitão feliz, de “quem pode, pode”, só quer dar filé mignon “made in USA” para seu filho. Segue o exemplo do Supremo Tribunal Federal que contrata cardápios à base de lagostas, camarões, vinhos exclusivamente com vários prêmios internacionais, whiskies com mais de uma década de envelhecimento, etc. e tal – claro que tudo com dinheiro do contribuinte.

Agora, para embrulhar de vez o estômago (vazio, de grande parcela da população), aparece um tal de Mister Miserê, que choraminga por não conseguir viver com apenas 24 mil reais por mês (valor líquido) omitindo que, graças aos “penduricalhos” de toda espécie e DESordem, na verdade recebe a média mensal de R$68.275,34. O valor recorde neste ano foi de R$87.815,30 e, talvez, venha daí o seu desespero, porque em anos anteriores, já teve mês em que embolsou R$145.670,65! Mesmo que fossem “só” R$24 mil mês, já seriam imensamente acima do que ganha 99,4% da população brasileira (dados oficiais da RAIS – Relação Anual de Informações Sociais). A fortuna que o nosso empregado (sim, o meu, o seu, o nosso empregado, porque o dinheiro vem dos impostos que todos pagamos) realmente ganha, é de, no mínimo, R$2.275,84 por dia, tanto faz trabalhando ou não, porque inclui os dias de folga, férias normais, férias extraordinárias, férias prêmio, e o diabo a quatro!

Revolve ainda mais o estômago, quando o Mister Miserê diz estar sendo vítima de “linchamento moral” pelos que não compreendem a sua aflição por ter que reduzir os R$20 mil que gasta mensalmente em cartão de crédito. Do que faz com o restante, só explicou que usa R$4,5 mil para pagar condomínio da sua residência.

Afirmando que “infelizmente não tem origem humilde e não é acostumado a tanta limitação”, o procurador Leonardo Azeredo dos Santos diz estar vivendo à base de comprimidos antidepressivos – dois de sertralina por dia, e que “se não tomasse, ia ser pior do que Ronaldinho” (sic). Coitado do Mister Miserê.

E já que estamos falando do milionário (deve ser, para pagar tão elevados salários) Ministério Público de Minas Gerais, no último dia 12 ele abriu inscrições para preencher 50 vagas de promotor de Justiça substituto, com salário inicial de R$ 30.404,42. Caso o caro leitor se inscreva, seja aprovado e admitido, por favor, tenha dó do sofrido povo brasileiro que é quem sustenta todos os órgãos oficiais, e não se queixe depois do miserê do salário!