Home > Opinião > Por que pensar na morte afeta a mente humana?

Por que pensar na morte afeta a mente humana?

Crédito: Victor Pollak/Globo

O que você faria se tivesse apenas 6 meses de vida? Esse questionamento cerca o roteiro da novela “Bom Sucesso”, lançada pela Rede Globo na última semana. A pergunta levanta uma reflexão sobre um tema que, segundo a especialista em psicologia clínica Luisa Conrado, os brasileiros tendem a evitar: a morte.

Mas por que será que falar sobre o fim da vida causa tanto incômodo? Para a psicóloga, mesmo compreendendo que nossos dias são finitos, não saber o que vem após a morte é o que gera o desconforto. Ela diz que é preciso falar dos sentimentos com mais naturalidade para que a morte seja aceita e compreendida.

Por que temos dificuldade em viver com a consciência de que nossos dias são finitos?

A única coisa que temos certeza na vida é a morte e, mesmo assim, não sabemos quando, onde ou como ela acontecerá. Parte da nossa angústia se dá quando refletimos sobre nossa finitude, mas podemos usar isso para nos motivar. Mas é claro que existem casos em que a pessoa prefere ignorar esse fato por ser doloroso e confuso.

A religiosidade e espiritualidade vêm como tentativas de explicar o que acontece com a gente depois da morte, mas não temos garantias do que há depois. Sendo assim, alguns vivem baseados em uma fé. Não digo que a religiosidade é ruim, pelo contrário, ela dá meios para que lidemos com a morte de uma forma branda.

De que maneira somos afetados quando vivemos um evento traumático relacionado à morte?

Eventos traumáticos e catástrofes nos colocam de frente com a morte de uma maneira muito abrupta e isso faz a gente pensar que poderia ser com alguma pessoa próxima ou com nós mesmos. Esses episódios fazem com que surja a reflexão: “O que estou fazendo da minha vida? O que aconteceria se hoje fosse meu último dia?”. E, por serem questionamentos angustiantes, geralmente, os evitamos.

Falar sobre o fim da vida ainda é um tabu no Brasil?

A cultura ocidental não lida bem com a morte. Temos a crença de que falar de assuntos ruins trazem mal agouro e ignoramos temas importantes como esse. No Brasil, de forma geral, temos vários tabus que dificultam as relações e o crescimento social do país, mas a morte é algo natural e faz parte do ciclo da vida. Por isso, falar nos deixa atentos, além de permitir que lidemos com ela de uma forma mais madura.

Outro tabu relacionado à morte é o suicídio, que é um ponto importante a ser conversado e esclarecido. Os índices aumentaram no país e abordar o tema não significa encorajar a pessoa, mas ouvir sua perspectiva para pensar no que pode ser feito para que sua vida seja preservada.

Quais as consequências de não refletirmos sobre nossa finitude?

Não falar sobre a morte e as maneiras que podemos morrer gera um ponto cego em relação aos acontecimentos da vida. Se alguém próximo de nós morre, lidamos com revolta e tendemos a agir de forma destrutiva. É importante pensarmos que todas ações que temos na vida geram consequências, sejam elas boas ou ruins.

O que as pessoas poderiam fazer para que o assunto seja mais aceito e debatido?

Devemos começar pelas crianças, por exemplo, quando os pets morrem, ao invés de esconder, devemos explicar o porquê aquilo aconteceu. Assim, a morte será vista e compreendida como algo natural. Perder alguém gera muita dor, mas o fardo fica menor quando a saudade não está misturada à raiva e revolta. Se uma pessoa querida está doente, é importante termos uma conversa franca também, isso não significa que estamos desejando sua morte, mas tentando assimilar a falta que ela fará. Precisamos falar dos nossos sentimentos.

Como viver a vida de uma maneira melhor?

O autocuidado é sempre a chave nessas situações, pois a preservação da vida é feita diariamente. Funcionamos de forma integral com nosso corpo, mente, sentimentos e o cuidado sempre deve abranger tudo isso. Se é difícil falar de determinados assuntos, é fundamental que a gente encontre alguém de confiança para nos ouvir e conversar.

Nat Macedo
Belo-horizontina, 22 anos. Graduanda em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio de Sá, fez cursos de Consultoria de Imagem e Design de Moda. Há 3 anos criou um blog voltado para o público feminino. Interessada em assuntos relacionados à minoria, gosta de dar visibilidade as pequenas causas voltadas a inclusão e empoderamento destes nichos.