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Futebol menospreza violência contra a mulher e reforça machismo

Neymar, Cristiano Ronaldo, Mancini, Jobson e Loïc Remy têm duas coisas em comuns: todos são jogadores consagrados e foram acusados de estupro. O futebol que, antes aparecia na editoria de esportes, infelizmente, tem ganhado cada vez mais as páginas policiais devido aos casos de violência contra as mulheres.

Há uma semana, o ex-lateral-esquerdo do Paris Saint Germain, Maxwell Scherrer, por exemplo, foi denunciado pela ex-companheira Giulia Reverendo Andrade por agressão. Giulia registrou a ocorrência em uma delegacia de Belo Horizonte. No início de junho, Neymar foi acusado de ter estuprado a estudante Najila Trindade, em Paris. A ocorrência está sendo investigada pela polícia brasileira. Porém, o episódio mais emblemático e que envolve feminicídio é o do goleiro Bruno, condenado a 22 anos e 3 meses de prisão por ser o mandante do assassinato da modelo Eliza Samudio, com quem teve um filho. Antes mesmo de cumprir metade da pena, Bruno assinou contrato com dois clubes de Minas Gerais, o Montes Claros, em 2014 – mas não conseguiu liberdade provisória para treinar e jogar. Em seguida, em 2017, com o Boa Esporte, onde disputou cinco partidas, mas, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), acabou voltando para a cadeia.

O doutor em educação e autor de estudos sobre masculinidade e futebol, Gustavo Andrada Bandeira, atribui os casos à cultura machista presente na sociedade brasileira que reflete, fortemente, no futebol. “O problema da violência contra a mulher não se restringe a nenhum ramo de atividade profissional, contudo, os jogadores são figuras midiáticas e que têm visibilidade. Além disso, existe uma cultura esportiva que é muito masculina”.

Essa masculinização do futebol, segundo ele, coloca a mulher em um lugar insignificante. “Muitos jogadores entendem que pode ter qualquer mulher e que basta escolher. É verdade que eles têm uma oferta de encontros amorosos vasta, mas o fato de terem acesso a um número extenso de parceiras sexuais, não garante acessibilidade a todas”.

Bandeira explica ainda que há uma promoção dessas supercelebridades. “A gente vive a cultura do ‘você sabe com quem está falando?’ e valorizamos a individualidade de êxito e sucesso. É como se o status de jogador o colocasse em um lugar diferente do nosso e os próprios torcedores ajudam nisso”.

Segundo ele, com essa percepção, cria-se um entendimento de que se determinada pessoa é melhor, as outras devem favores e reverência a ela. “E, em um caso extremo, as mulheres devem seus corpos. Nessa lógica, a sociedade vai se deparando com todos esses episódios de violência explícita, escandalosa e trágica”.

Ele acrescenta que o futebol passa a corroborar com a violência contra a mulher. “Não são os únicos culpados, mas também não são inocentes. O excesso de machismo presente nesse espaço dá oportunidade a mulheres apenas em papéis secundários, como se elas fossem menos capazes. Ninguém fez mais gols em Copa do Mundo do que a Marta, mas a primeira coisa que fazem é compará-la ao Pelé. Não precisa disso, mas é quase uma exigência do machismo presente no esporte”.

Falta punição?
Para Bandeira, nem as acusações de estupro, agressão ou até mesmo assassinato, mancharam o futebol. “As pessoas não fazem essa associação, infelizmente. Grandes jogadores não têm problemas em suas carreiras após o envolvimento em casos sérios como esses. Seria importante que a sociedade questionasse e pedisse que esses atletas tivessem alguma punição. As pessoas tomam essa violência como naturalizada”, dispara.

Ele diz ser fundamental que a torcida cobre uma posição dos clubes para que os times punam o jogador de alguma forma. “A punição também ensina e esse é o foco”.

De acordo com o marketólogo esportivo Michael Martins, o ideal seria um afastamento. “Existem órgãos competentes para apurar o episódio, mas o clube deveria afastar o atleta. Isso porque um jogador não representa só resultados dentro de campo, mas fora também. Inúmeras pessoas se espelham neles e, após uma acusação grave, perdem a credibilidade de um modo geral”.

Fim de carreira?
Martins garante que nenhum jogador teve sua carreira travada por essas acusações. “Porém, uma série de fatores, inclusive relacionada ao estupro, fez com que o jogador Jobson entrasse em declínio. Ele teve uma passagem memorável no Botafogo, mas se envolveu em vários casos de brigas, drogas e, em 2016, foi acusado de ter embriagado e abusado de 4 menores de idade. Depois disso, nunca mais se recolocou no esporte de alto nível, conseguiu oportunidades apenas em clubes de menor expressão”.

Segundo Bandeira, os jogadores de grandes times, que recebem mais atenção, tem facilidade em saírem isentos de escândalos. “Um exemplo é o caso do Neymar. É óbvio que ainda não se comprovou o estupro, mas todo mundo já o trata como inocente a partir do vídeo que ele diz não ter culpa. Fato é que ele é um dos melhores da sua geração, e é tão extraclasse que as pessoas relevam todos os seus problemas pessoais”.

O marketólogo acredita que a vida pessoal do jogador pode interferir diretamente em sua carreira. “Todos nós, independente da profissão, temos o momento de trabalhar e se divertir, mas um atleta é líder de opinião e, sendo figura pública, deve se portar como uma pessoa que representa várias outras, além de seu clube e diversas marcas”.

Martins conclui dizendo que a conduta dos clubes de futebol deveria ser semelhante a da National Football League (NFL). “A Liga considera inadmissível que seus jogadores se envolvam em polêmicas. Lá, o afastamento é imediato, porque é ruim para a marca e para a instituição. Afinal, ninguém se sente representado por um atleta que comete esse tipo de crime”.