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Jogue como uma mulher

Crédito - Marcelo Souza

Quando o assunto é esporte, há quem diga que o lugar da mulher é a arquibancada. Mas, alguns nomes desmistificam essa ideia e mostram que elas também podem chegar ao topo do pódio. No Brasil, por exemplo, a jogadora de futebol Marta foi eleita a melhor do mundo seis vezes seguidas. No futsal, Amandinha foi escolhida quatro vezes consecutivas a melhor do planeta e, no vôlei de praia, Duda é considerada a melhor do ranking da última temporada.

As atletas brasileiras também ocupam espaço em outras modalidades como o rugby, tênis, luta marcial, judô, automobilismo e no poker, como a empresária Márcia Machado, entrevistada desta semana na série #OndeElaQuiser.

Ela foi campeã na categoria 34 vezes e, dentre os prêmios, levou para a casa o Minas Poker Series, uma das principais disputas da área. Márcia aprendeu a jogar quando cursava engenharia, mas não praticava profissionalmente. “Meu marido disputava com os amigos, um dia ele foi a uma casa de poker e descobriu que no dia seguinte teria uma disputa só de mulheres. Decidi ir para ver como era e entrei em uma mesa. Lá fiquei sabendo que se tratava da etapa feminina de um campeonato e terminei em 3º lugar”.

Depois desse dia, ela percebeu que era boa e começou a estudar mais. “O poker é um jogo 100% estatístico e matemático. Fui me interessando cada vez mais e procurei um coaching (treinador) para me dar aulas. Participo das disputas há 1 ano e meio”.

Márcia afirma que, infelizmente, ainda sente o preconceito. “A gente é subestimada. Somos vistas como fracas, porque o número de mulheres nesse esporte é menor, mas essa é uma ideia errada. Recentemente teve um torneio grande em Minas e na disputa tinha 7 mulheres e 200 homens. A mesa final contou com 2 jogadoras e 7 jogadores”.

Para ela, o preconceito existe pelo fato do poker ainda ser masculinizado. “Há um tempo, as mulheres não jogavam, por isso o ranking feminino ainda é desvalorizado. Quem ganha a disputa tem uma vaga na seleção brasileira, mas ainda assim é desmerecido”.

Existe a obrigatoriedade de haver uma mulher na seleção de cada Estado. “O poker é um esporte misto, mas a grande questão é que a disputa é quase 94% masculina. É difícil ter uma quantidade adequada de mulheres em destaque justamente porque temos um espaço pequeno na área. Acredito que no dia que isso se equiparar, vamos ganhar muito mais que eles”.

Segundo a jogadora, é preciso perseverar. “Quando fui jogar foi de maneira despretensiosa. Porém, acreditei em mim, investi e passei a ter um destaque grande. Tem preconceito sim, a gente ouve piadinhas e brincadeiras de mau gosto sim, no entanto, é preciso ir em frente. Tudo o que nós, mulheres, conquistamos foi a base de muita luta”.

O poder do esporte

Márcia elucida que o esporte ajuda no empoderamento feminino. “Toda ferramenta que coloca a mulher em uma posição de igualdade com o homem tem essa função. O esporte mostra que estamos ali, frente a frente, e isso vai além dele, chegando ao mercado de trabalho ou em qualquer lugar que a gente quiser. É difícil ter que mostrar o tempo inteiro que somos boas, capazes e que sabemos fazer a coisa, mas temos que ter força para provar quantas vezes forem necessárias a fim de mudarmos essa realidade um dia”, afirma.

Para a jogadora, é necessário haver uma conscientização de gênero na infância. “É algo enraizado, temos que começar pela criação das crianças. Tenho um grupo de mulheres e mães de Minas no Facebook, é o maior do Estado, e observo que a nossa geração está mais certa de que podemos tentar criar homens conscientes”, acredita.

Ela observa que essa ideia tem feito os homens saírem do papel de coadjuvantes em áreas que, para muitos, devem ser desempenhadas apenas por mulheres. “Tanto na paternidade, quanto nos cuidados da casa, mercado de trabalho, esportes, etc. Tenho uma filha de 20 anos e um filho de 5, gerações diferentes e antes não se viam homens na reunião de pais, hoje essa realidade está mudando”.

A jogadora conclui dizendo que falta abertura para mostrar as mulheres desempenhando funções que ninguém está habituado a vê-las fazerem. “Temos que propagar incansavelmente como é feito com crianças: por repetição. Agora. se não quiserem entender que também podemos, que nos engulam”.