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Mercado otimista às vésperas de uma eleição?

Confesso que fiquei surpreso com os dados divulgados pelo Ministério do Trabalho, há poucos dias, registrando a expansão dos empregos formais no mês passado em mais de 137 mil vagas. E não foi só a mim que o resultado surpreendeu: economistas e pesquisadores, como os do próprio Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), organismo do Governo Federal que mensalmente registra o comportamento do mercado de trabalho, não esperavam tal desempenho, embora seus indicadores apontassem a continuidade do processo de recuperação. A expectativa era de que o saldo da relação demissões/contratações ficasse, na média das projeções, em algo ao redor de 90 mil novas admissões.

Este foi o melhor resultado para um mês de setembro, três vezes maior que o registrado há um ano, acumulando em 2018 cerca de 720 mil postos de trabalho. É um número animador, mas está longe de reverter o estrago feito pela crise, que, entre 2013 (quando tiveram inícios as demissões em massa) e fins de 2017, quando começaram os sinais de uma lenta recuperação, ceifou os empregos de quase 3 milhões de pessoas. Há ainda, portanto, um déficit considerável: cerca de 2,2 milhões de pessoas continuam desempregadas ou subempregadas.

Na opinião de algumas empresas de consultoria, o ritmo da abertura de vagas vem se acelerando, como reflexo da reação da atividade econômica e da proximidade do fim de ano, que abre a temporada de contratações temporárias. Quanto à reação econômica, ok. O lento, embora constante crescimento do PIB no decorrer de 2018, a confirma. Mas não é provável que as tradicionais contratações para as vendas de Natal tenham alguma coisa a ver com isto.

Primeiro, porque dificilmente a temporada começaria em setembro, é muito cedo. Segundo, e mais cabal, que a indústria de transformação e o comércio, setores que sempre reforçam seus quadros nesse período, abriram não mais que 64 mil vagas, enquanto o setor de serviços – deste excluído o comércio – criou 60 mil. Outra boa surpresa que se extrai dessas estatísticas é o crescimento da construção civil, que contratou 12.500 mil novos trabalhadores, um número 33 vezes maior que o de um ano atrás.

O mais surpreendente para mim, no entanto, é o fato de que esses indicadores positivos foram apurados quase às vésperas de uma eleição presidencial que, mesmo ainda setembro, já sinalizava forte tendência a favor do candidato do PSL. Até hoje, às vésperas do pleito – e com suas favas certamente já contadas – nem ele nem seu concorrente disseram claramente a que vêm, não expuseram planos de governo claros, limitando-se a pinceladas rápidas e imprecisas sobre o que pretendem e, na economia, que é o que aí interessa, ambos apresentam apenas objetivos, nem sempre factíveis, e nunca os meios. E pior – quando o fazem, são mirabolantes.

Este comportamento do mercado neste período contraria tudo o que já vi em vésperas de eleições, quando a cautela torna-se praxe. Para mim, ou o setor produtivo sabe de coisas que não sei ou, simplesmente, não tenho conseguido captar as entrelinhas. Se é que elas existem.

Desta vez, este artigo é bitemático: naquele publicado há três semanas, eu manifestava minha indignação – que depois percebi não ser só minha, mas de muitas pessoas que depois o comentaram – quanto aos preços praticados pelos postos de combustíveis, em especial de gasolina. Pois bem, na semana passada o preço deste combustível chegou, em alguns postos, aos R$ 6 por litro. E isso num momento que a cotação do dólar americano, referência para a formação do preço, oscila em torno de R$ 3,66 e o preço do combustível nas refinarias era de R$ 2,0630. Mesmo levando em conta os custos de transporte e distribuição, assim como a margem de lucro do revendedor, não há justificativa para que este combustível chegue tão caro ao consumidor.

Continuo indignado.

*Engenheiro, vice-presidente da Federaminas, presidente do Conselho do Instituto Sustentar e presidente da Federação de Conventions & Visitors Bureau de Minas Gerais