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Apatia x Facada

Uma correta análise de dados começa pela busca, identificação do “marco zero”, do “fato gerador” para se compreender as motivações e influências que “startaram” determinado fenômeno.

É fato – comprovado por pesquisas e, principalmente, por candidatos em todo Brasil – a persistente apatia de grande parte dos eleitores em relação ao pleito deste ano, especialmente no que tange as campanhas proporcionais. Segundo pesquisa CNT/MDA divulgada em 17 de setembro, até mesmo para a eleição presidencial, apenas 23,7% dos eleitores tem real interesse no processo eleitoral e a soma dos votos brancos, nulos e indecisos bate a casa de quase 26%, quase o dobro dos 14% históricos para esse período da campanha.

No conceito filosófico, apatia é o estado não suscetível de comoção do indivíduo, ou seja, estado de insensibilidade e indiferença. E é exatamente esse o sentimento que domina o eleitor brasileiro, que predomina nesse atípico pleito de 2018.
Excetuando os fisiologistas, aquelas pessoas com interesse direto no desempenho de seus candidatos nas urnas, aqueles que serão sócios do resultado positivo, não se vê, em grande número, aquele eleitor com simpatia, com inclinação a um determinado discurso ou proposta. Está morrendo o engajamento.

Identificar o marco zero que gerou tal estado de apatia – que representa mais do que o abatimento e a falta de ânimo – é a chave para se compreender que ela se materializa na baixa da guarda do eleitor brasileiro e que, consequentemente, abre brechas para discursos oportunistas e muito aquém da necessidade do Brasil e de sua gente. Ficamos suscetíveis a discursos vazios, propostas ridículas, neófitos insuportáveis e, pior, perdemos a enorme oportunidade de mudar e ser melhor.
Em 2015 o movimento “Vem pra Rua” levou milhões de pessoas às ruas de todo o Brasil. Trabalhadores, pais de família, jovens e estudantes, em sua maioria, cidadãos apartidários e apolíticos, indignados com a tempestade de denúncias de corrupção que, apesar de historicamente, não serem maiores, nem menores, mas por estarem, pela primeira vez, sendo acertadamente investigadas a fundo e amplamente noticiadas pela grande mídia e redes sociais. Esse movimento culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) e a consequente e inconsequente posse de Michel Temer (MDB).

Este vultoso e impressionante movimento popular “Vem pra Rua” trazia em seu bojo a justa e legítima indignação da sociedade e representou um enorme e indiscutível ato de democracia. Mas “apenas” negligenciou do princípio estratégico fundamental, que é prever o passo seguinte, a próxima etapa do processo. Assim, depositou toda sua força e esperança na derrubada de Dilma sem levar em conta o passo seguinte: o desastre Temer.

Esse movimento tão importante, tinha em seu âmago, o lamento mudo dos eleitores do derrotado candidato que se opôs à Dilma e que logo em seguida ao fracasso nas urnas, foi alvo de graves suspeitas de corrupção, sendo formalmente acusado pela PGR por corrupção e obstrução à justiça.

O Brasil assistia, em cadeia nacional, os telejornais reproduzirem a ligação em que Aécio pede R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, dono da J&F, em troca de seus favores políticos. Em outra ocasião, o senador tenta influenciar na escolha de delegados da Polícia Federal, em inquéritos alusivos à operação Lava Jato, numa clara tentativa de obstrução ao trabalho da justiça. É nesse momento que a esperança do brasileiro, daqueles participantes do “Vem pra Rua”, vira pó.

Subsequente a esse enorme choque de desilusão, cai no colo do brasileiro o inesquecível Temer. Do alto do seu recorde de rejeição – 82% – e indiferente aos interesses e necessidades do cidadão comum, ele entrega as maiores riquezas do país, como o pré-sal, e releva as necessidades básicas do brasileiro, negligencia as enormes dificuldades por que passa o Brasil, tudo em detrimento dos seus próprios interesses. Seus e do seu grupo político/empresarial, de sua trupe.

Este é o gênesis da atual apatia: o desastre Temer e a decepção Aécio.

Assim, como em toda estratégia, quando a apatia abre brechas para o oportunismo, observa-se que a apatia do eleitor brasileiro abriu espaço para esse oportunismo, para o radicalismo e o ódio.

O principal candidato do primeiro turno nas eleições presidenciais – fase em que o voto é apenas de alinhamento – não traz sequer uma proposta para a nação, exceto a de transformar a apatia e a indignação em ódio. Sua campanha é lastreada na indiferença e na insegurança do cidadão, no fundamentalismo religioso e no neoliberalismo da direita, que esteve aparelhada com o governo americano no golpe de 64 para a instituição da mal fadada ditadura militar no Brasil. Um candidato que prega aos seus fiéis que se for eleito, será pela vontade do povo, mas que, se sair perdedor, será porque as urnas eletrônicas foram fraudadas, incitando um discurso pra lá de incoerente, que gera mais uma vez a apatia, a desconfiança e a insegurança.

Tudo isso ocorre neste momento em que o brasileiro que já está tão sofrido e desprovido de propostas concretas e altruístas, carente de políticos sérios e experientes, políticos de pulso firme, mas de coração aberto, de equilíbrio e não de arma, de governantes que queiram desarmar a bandidagem ao invés de armar o cidadão de bem, de homens que proponham soluções reais e pacíficas e não de delírios e facadas.

É nesse misto de ódio, descrença, insegurança e apatia que vive o brasileiro. É nesse país comando por Temer, nesse momento em que Aécio Neves (PSDB) perde a máscara e passa a ser apenas Aécio Neves, que somos presenteados com candidaturas de bolso de colete, insossas e incompreensíveis, que 23% do eleitorado admite viver no país da arma, do ódio, da prepotência e do Bolsonaro.
Se o momento não nos oferece soluções, que fiquemos com a apatia. Mas, que não nos iludamos com a falácia da extrema direita. Que nossa descrença não se arme. Que não dê facada em nós mesmos.