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Dos becos às fachadas: Alto Vera Cruz ganha mural a céu aberto

Aglomerado Cruzeirinho colorido, visto da Avenida Andradas - Crédito: Área de Serviço

Para os moradores do Alto Vera Cruz, situado na região Leste de Belo Horizonte, as formas de arte que pulsam dentro da comunidade não são novidades. Mas o restante da capital que associa a região a pontos negativos, como a violência, pode se surpreender ao passar pela Avenida Andradas, na altura do aglomerado Cruzeirinho e avistar o painel do projeto Morro Arte Mural (Mamu).

Desde junho, cerca de 40 casas e becos da comunidade, que segundo o Censo 2010 tinha aproximadamente 23 mil moradores, receberam em suas paredes cores, desenhos e formas. A concepção da arte é da dupla Comic Boys, formada pelos grafiteiros Zeh Palito e Rimon Guimarães, que já visitaram várias cidades do mundo deixando suas marcas em projetos semelhantes. “As pinturas escolhidas representam um jogo no ponto de vista arquitetônico e urbanístico espontâneo e são improvisadas na paleta de cores da paisagem. A ideia é mudar o ambiente e mostrar que a arte pode ser cotidiana”, explica Guimarães.

A equipe do Mamu é formada por 30 pessoas, entre responsáveis pelo reboco das paredes que receberam a tinta, por montar os andaimes, auxiliar na pintura e na produção. Cerca de 80% do time é composto por moradores da comunidade.

Segundo a grafiteira, moradora do bairro e produtora do Mamu Wanatta Rodrigues, o objetivo do projeto é ressignificar a visão que se tem sobre as periferias, em especial, o próprio Vera Cruz, uma terra culturalmente fértil. “Nós temos uma das maiores extensões de comércios de regiões periféricas. Temos de tudo aqui, o dinheiro local gira dentro do próprio Vera Cruz. Temos artistas com nomes de projeção internacional, como o Renegado, as Meninas de Sinhá, Rafael Dias e Negro F. O bairro tem mais pontos positivos que negativos”, diz.

Mesmo assim, segundo a vivência da moradora, a região é uma das mais estigmatizadas da capital. “Fora do Vera Cruz, um problema que temos é as pessoas terem vergonha de falar que moram aqui quando vão fazer uma entrevista de emprego, porque sabem que nosso CEP pode interferir na seleção, mesmo sendo uma favela que está a 20m do Centro”.

“Essa é mais uma frente da nossa luta cotidiana, já atuamos com a música, ações, eventos e atividades para provarmos na prática que a imagem que se tem da comunidade é distorcida. Utilizamos várias vezes #AmorAoAltoVeraCruz nas redes para mostrarmos as coisas boas que acontecem aqui”, afirma o empreendedor social Fred Maciel, conhecido como Negro F., morador e um dos produtores atuando como mobilizador local.

Juventude abraçada

Janaína Macruz, produtora da Pública Agência de Arte, responsável pelo projeto, explica que os jovens, atraídos pela pintura, também puderam participar de oficinas de grafite. “Foram duas oficinas gratuitas, uma de profissionalização dos grafiteiros da região e outra de iniciação de jovens interessados em começar. Lembro de uma reunião que fizemos com eles e foi falado que queriam aprender a parte profissional, como fazer orçamento de pinturas em muros, porque já tinha acontecido de perderem o trabalho por não saber. Então, a ideia de potencializar essa cena foi maravilhosa”, comemora.

Além da Pública, o Mamu conta com o patrocínio da Cemig, incentivo social da ONG A Rebeldia e apoio do Serviço Social Autônomo (Servas).

Como legado, Janaína pretende colher bem mais que apenas surpresas de quem passar pela Andradas. “Tinha um aluno de 10 anos que desenhava muito e quem sabe, daqui uns 10 anos, a gente não veja esses meninos da oficina já participando de outras cenas do grafite”.