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Voltar atrás para ir pra frente

O português João Vieira Pinto, ex-jogador do Porto, reconhecido como sendo parte da geração de ouro do futebol mundial, entre o final da década de 1980 e 1990, certa vez disse a seguinte frase: “O meu clube estava à beira do precipício, mas tomou a decisão certa: deu um passo à frente”. Evidente que ele não quis dizer o que disse, mas a história não o perdoou e, a icônica frase rende boas conversas e risadas até os dias de hoje por refletir a tese de que, independente do quanto algo esteja ruim, sempre pode piorar.
Nosso país vive sob um governo de legitimidade discutível. Nosso presidente ostenta inéditos recordes de impopularidade. É notório que as ações macro são lastreadas pelos interesses internacionais que visam à entrega das nossas riquezas a grandes conglomerados globais, que têm pouquíssimos ou nenhum compromisso com nossa gente, que olham para o Brasil apenas como mais um lugar possível de auferir seus próprios lucros, ratificando a política deste governo que pode ser sintetizada pela arcaica filosofia de exploração nociva e inconsequente, representada pelo lado nefasto de um capitalismo insensível e predatório.
O desgoverno, a incompetência e o descaso que vive o país comandado por Temer (MDB), sentido na pele por toda população, culminou recentemente numa das maiores greves já vistas e de proporções também nunca vistas. Foi proposta também uma pseudo reforma trabalhista, visando tão somente à privatização da Previdência Social. Essa proposta, de tão absurda, precisou que fosse inventada uma cara e inútil intervenção federal no Rio de Janeiro para tirá-la da mídia e da pauta de votações por não ter nem mesmo o apoio da própria base governista. Saiu, também, da cartola do Temer, a planejada desvalorização das ações de um dos maiores orgulhos do cidadão brasileiro – a Petrobras – com o único intuito de entregá-la aos acionistas estrangeiros. O recente e inegável desmonte de uma das empresas mais respeitadas do país – o Correios – para tão logo quanto possível, entregá-la também ao controle de “uma DHL, TNT ou FEDEX da vida”. Métodos escusos e repugnantes de um grupo que não contempla a qualidade dos serviços prestados ao cidadão ou o avanço tecnológico mas, única e exclusivamente, seus próprios e mesquinhos interesses.
Se não fosse o bastante, agora o governo federal – leia-se Michel Temer e sua tropa – tenta decolar mais um pacote de privatizações até meados de 2018, incluindo usinas, portos, aeroportos e rodovias. Nesse pacote estão inclusos a venda da Eletrobras, o direito de exploração do nosso petróleo, do pré-sal, da nossa Casa da Moeda, além da privatização dos sinais de telecomunicações das organizações militares de todo país e, até mesmo, da loteria instantânea. Nunca antes na história desse país se viu uma proposta tão descaradamente saqueadora, suplantando “as entregas” da era FHC. Com esse entreguismo Temer vende sua alma e a vida dos brasileiros. Tudo em nome da ganância e dos seus próprios compromissos.
Mas, como à beira do precipício sempre há a possibilidade de se dar um passo à frente, ou seja, do ruim piorar, há o risco do Temer virar Bolsonaro. De se trocar o “culto e imoral” pelo “ignorante e imoral”. De se trocar a velha política pelo velho preconceito. De se trocar o velho grupo pela velha ditadura. Do brasileiro trocar a tão dura conquista da liberdade, pela censura e opressão.
Bolsonaro, que não tem propostas nem conteúdo, que não tem capacidade nem propósito, cresceu à custa de discursos populistas, mesmo que tropeçando em seu próprio podre ego. É racista declarado, homofóbico convicto, defensor da ditadura e do golpe de estado, da tortura e da guerra civil. Nunca apresentou uma proposta construtiva que representasse o mínimo de inteligência ou sensatez. A evolução do que é ruim. O passo à frente na beira do precipício.
Nossa esperança está no que o Brasil tem de melhor: sua gente. Essa gente que muitas das vezes não entende, mas sente. Sente que Temer tem más intenções e fortemente o rejeita. Sente o risco que vivenciamos com um possível, apesar de improvável, comando de Bolsonaro. É esse povo brasileiro que, certamente, entenderá que a melhor saída será voltar atrás, pois, sem o risco de cairmos no abismo, teremos a oportunidade de mudar a direção.