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Greve dos caminhoneiros causou prejuízo de R$ 1,7 bi por dia em Minas

Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Na semana passada, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) convocou uma reunião com sindicatos patronais do estado no qual a pauta principal foi a paralisação dos caminhoneiros. Após o encontro, que reuniu mais de 100 líderes do setor industrial, o presidente da entidade concedeu uma entrevista coletiva.

Na conversa, Flávio Roscoe mostrava-se preocupado com os rumos da greve e disse que uma boa solução seria a intervenção do governo para o país voltar a normalidade. “Há um risco eminente da paralisação completa do sistema produtivo e da sociedade. Se isso ocorrer, podemos ter o colapso e o caos. A produção de alimentos demora a ser retomada, mesmo com a volta da distribuição, afinal vários setores produtivos foram interrompidos”.

Além disso, a federação afirmou que Minas Gerais sofreu prejuízo de R$ 1,7 bilhão por dia com as paralisações das atividades dos caminhoneiros.


Veja um pedaço da nota oficial da Fiemg:

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A sociedade brasileira, que já foi drasticamente penalizada com o desabastecimento generalizado, corre o risco de prejuízos ainda maiores, como o aumento do desemprego, atraso no pagamento de salários nos setores público e privado, falta de gêneros alimentícios e até suspensão de serviços médicos nos hospitais.

Sem condições para receber matéria-prima, produzir e transportar sua produção, é impossível vender. Sem vender não há como pagar os salários gerados pelo setor. Não há, igualmente, como honrar compromissos com os fornecedores e com os bancos, com claro risco de insolvência generalizada na economia.

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No comércio, o prejuízo também foi grande. Segundo estimativa da Fecomércio MG, no estado, o rombo no varejo foi de R$ 469,8 milhões por dia. A pesquisa apontou ainda que os principais problemas foram baixo fluxo de clientes/vendas (67%), falta de estoques (40%), ausência de insumos para o funcionamento da loja (16%), ausência de funcionários (10%) e atraso dos empregados (3%). Além disso, 14% das empresas deixaram de funcionar ao menos um dia e 30% encerraram o expediente mais cedo.

Guilherme Almeida, economista da Fecomércio MG, conta que a falta de transporte gera um “efeito cascata” em todos os setores. “A paralisação afetou os seguimentos produtivos. Por exemplo, vimos várias notícias do produtores no campo descartando a mercadoria por conta do período de estocagem ser muito curto e o produto ser perecível. Isso prejudica o campo, a indústria para a produção e o varejo, que atua na ponta, acaba sentindo esses reflexos também”.

O economista reitera que o impacto em Minas foi negativo pelo fato do estado ter a maior malha rodoviária do país e o escoamento da produção ser feito quase que exclusivamente por rodovias. “Temos 853 municípios, a maioria deles são acessados por estradas de interligação que foram bloqueadas e impedidas de receberem os produtos”.


Para entender melhor como os caminhoneiros pararam o Brasil, o Edição do Brasil conversou com o especialista na prática de distribuição e gestor de mercado logístico, Fabrício Santos.

1- Por que os caminhoneiros pararam o Brasil?

A principal forma de escoar os produtos no país é pelo modal rodoviário. Segundo dados da Fundação Dom Cabral, 75% de tudo que é produzido é transportado pelas rodovias, 9,2% marítimo, 5,8% aéreo e 5,4% ferroviário. Além disso, quando fala-se  da questão dos combustíveis, os números são ainda maiores: quase que 100% é transportado por estradas. Então, sabendo dessa força, eles param o Brasil segurando o que move o país.

2- Existe uma alternativa ao transporte rodoviário?

Sim, há o ferroviário e hidroviário, entretanto, os outros modais não são tão atrativos politicamente como o rodoviário. Em uma rodovia é possível escoar a produção, as pessoas vão poder andar com os automóveis e todo mundo verá essa obra. Já uma ferrovia, dificilmente alguém vai ver. Outro fator que pesa é a questão dos custos de construção, é bem mais barato fazer um asfalto do que uma ferrovia, apesar do valor de manutenção da segunda ser bem menor.

3- Por que usa-se pouco o transporte ferroviário?

Chegamos na dependência total de rodovias devido às decisões erradas de décadas passadas, pois investiu-se tudo em um modal que causa dependência. Além disso, é o mais improdutivo e o que mais gera custo. Para transportar uma tonelada de produtos por mil quilômetros, o navio gasta 4,1 litros de combustível, ferrovia 5,7 litros e caminhão 15,4 litros, ou seja, o modal rodoviário é três vezes mais caro que o navio e o dobro do trem.

4- É possível resolver essa dependência do transporte rodoviário a curto prazo?

A curto prazo não dá para fazer muita coisa. O que pode ser feito é soltar emergencialmente mais dinheiro para terminar as ferrovias que já estão em andamento e tentar subir de 5,4% o transporte da produção para 10% ou 12%. Ressalto que esse investimento em outros modais deve ser urgente, porque os caminhoneiros perceberam o que eles podem fazer e acredito que essas greves podem virar uma constante.

*Até o fechamento desta edição, 1º de junho, tudo indicava que a greve tinha chegado ao fim.