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Você conhece as consequências da alta do dólar na vida

Na última semana, o dólar americano comercial voltou a subir e fechou cotado a R$ 3,66, sendo o maior valor desde abril de 2016. A moeda é muito utilizada por investidores no mercado financeiro ou por pessoas que estão pensando em viajar. Mas você conhece como funciona o câmbio e as razões que levam a moeda subir ou cair, além dos efeitos que essa alta constante causa na vida dos brasileiros? Para entender a situação, o Edição do Brasil conversou com Paulo Roberto Paixão Bretas, presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG).

O que tem feito o dólar subir em relação ao real?
O mercado financeiro também responde ao comportamento psicológico, ao medo, a tensão e ao risco. São coisas supra econômicas e que influenciam as decisões das pessoas. E o que acontece no momento é que a Argentina está vivendo problemas de falta do dólar. A economia americana está demonstrando que está melhorando. A alta dos juros atrai investimentos para lá, buscando segurança no mercado americano. Isso significa que pode faltar dólar no fluxo mundial de circulação. Se as pessoas entram em uma expectativa de que vai faltar dólar, elas imediatamente associam isso a subida da moeda. E como qualquer outra mercadoria, se for escassa tende a aumentar de preço quando há uma demanda continuada por elas.

Nesse caso, junta o comportamento do mercado, a avaliação do que está acontecendo na Argentina, mais a alta dos juros americanos e a decisão do mercado é de que é necessário adquirir mais dólar, pois ele vai subir de preço. As pessoas antecipam a compra e buscam ainda mais a moeda por diversas razões. Algumas precisam importar, outras precisam pagar dívidas, o que provoca esse movimento de alta.

Quem se beneficia e quem perde com a alta do dólar no Brasil?

Ganha quem possui reservas da moeda americana e quem exporta, pois terá uma relação entre o real e o dólar favorável do ponto de vista da moeda brasileira ficar mais barata e ele poder ter preços mais baratos e exportar mais. O Banco Central também ganha, pois tem as reservas de cerca de US$ 370 bilhões, sendo importante para evitar que tenhamos uma crise cambial.

Perde quem não tem dólar e tem que pagar dívidas. Além de quem não pode comprar as swaps cambiais, antecipando aquele dólar que você terá que gastar mais à frente. Pois se a perspectiva é de o valor da moeda continuar subindo e você tem uma dívida em dólar, o melhor é ter uma reserva agora que te permita comprá-lo mais barato, do que arriscar e no futuro não ter como pagar esse endividamento.

Perde também o importador que terá que importar as coisas mais caras, correndo o risco de ter uma inflação de custo produzida por matérias-primas e componentes que são usados para fabricar e montar as coisas no Brasil, a partir daquilo que é importado a preço de dólar.

Como a alta do dólar afeta a economia brasileira? O país pode estar entrando em outra crise?
Se continuar subindo, no futuro isso pode sinalizar uma alta no preço de tudo que é importado, internalizando uma inflação que vem de fora. Também pode influenciar na questão do risco e as pessoas podem começar a desconfiar que o Brasil vai entrar em uma crise devido ao dólar está subindo muito. Para os exportadores influencia positivamente, pois vão vender em dólar e receber em reais. Evidentemente, sendo o dólar uma mercadoria, aqueles setores compradores vão sofrer mais que os setores vendedores. Quem vende aproveita que está em um preço mais alto e com uma perspectiva de mais ganho.

Hoje, como nós temos uma situação de inflação controlada, os analistas dizem que essa mexida no dólar é conjuntural e não estrutural. Isso significa que é um momento pelo qual estamos passando, uma medida de ajuste. Ela não vai afetar muito os índices de inflação brasileiros. Mas tudo muda, pois na economia tem que se analisar a dinâmica do mercado a todo instante.

A situação política e a proximidade das eleições afetam essa cotação?
Pode afetar na medida em que as pessoas começam a interpretar risco. Geralmente os termômetros disso são o dólar e a bolsa de valores. Quando as pessoas deixam de aplicar na bolsa e passam a comprar o dólar para poder ter uma segurança do seu patrimônio, pode ser um sinal de que elas estão desconfiadas que algo ruim vem pela frente. Mas ainda não vejo isso acontecendo de maneira generalizada na economia brasileira. Não estou vendo no momento um risco eleitoral produzindo mudanças no portfólio de investimentos dos capitalistas.

Quais são as perspectivas para os próximos meses?
É muito difícil prever. Eu não me arriscaria a fazer essa previsão. Mas acho que a perspectiva é de equilibrar em um novo patamar, uma vez que o Banco Central não vai deixar o dólar flutuar livremente para poder provocar incertezas na economia.

Existe alguma coisa que o governo brasileiro pode fazer para controlar essa alta?
Ele tem o recurso de vender as swaps cambiais, a reserva de dólares, pode subir os juros para atrair mais dinheiro e investimentos de fora, criar programas de investimento para atrair capital internacional. A economia é confiança, regras bem estabelecidas e riscos reduzidos.

No Brasil praticamos o que a gente chama de economia de flutuação suja. Isso quer dizer que o Banco Central deixa o dólar flutuar até que não ultrapasse determinados limites. Por exemplo, o dólar vai flutuar primeiro entre R$ 3 e R$ 3,10. Após um movimento de mercado vai subir e passar a flutuar entre R$ 3,20 e R$ 3,30. O banco acompanha e monitora para não virar uma coisa caótica. Se deixar o dólar disparar demais, produz no mercado o que chamamos de efeito manada. Todo mundo vai querer comprar dólar, pois percebe que a moeda está subindo e se valorizando.

Existe algum valor ideal para o dólar?
Para entender melhor essa questão é preciso voltar no tempo. O plano real teve uma característica importante que foi a fixação do valor do dólar. Naquela ocasião, queriam valorizar a moeda nova e que ela equivalesse a um dólar. Mas Fernando Henrique Cardoso cometeu um erro gravíssimo e manteve esse câmbio fixo mais tempo do que deveria, porque as variáveis políticas eram mais importantes no momento do que as econômicas.

Atualmente, isso provocaria mais instabilidade fixando o dólar. Se fixar com valor baixo, estaria valorizando a nossa moeda e usando isso como uma política de combate à inflação, o que não é o caso do Brasil que está com a inflação bem controlada. Se eu desvalorizo a nossa moeda, estaria sinalizando uma preocupação com a possível falta do dólar, o que é ruim para o mercado. É preferível permanecer com o câmbio flutuante e o Banco Central continuar monitorando para que isso não saia de controle.

Quem está com viagem marcada o que deve fazer, comprar ou esperar?
Isso é muito relativo. Pode ser que a fase do dólar alto tenha passado e que ele venha a cair de valor depois. Se a tendência é de alta e as análises econômicas dizem que pode subir mais, compre agora. Mas se a viagem ainda está muito longe, é melhor esperar um pouco e ver se a taxa cede novamente. E como o valor oscila muito, o ideal é nunca comprar tudo em um único dia. A pessoa pode fazer um melhor negócio se fracionar a compra da moeda.

O que é Swap Cambial?
É uma troca de riscos entre duas partes. O Banco Central (BC) oferece um contrato de venda de dólares, com data de encerramento definida, mas não entrega a moeda americana. No vencimento desses contratos, o investidor se compromete a pagar uma taxa de juros sobre o valor deles e recebe do BC a variação do dólar no mesmo período. Esses contratos também servem para dar proteção a quem tem dívida em moeda estrangeira. Quando o dólar sobe, recebem sua variação do BC.

 

Daniel Amaro
Formado em jornalismo, Daniel tem 25 anos e possui experiência em assessoria de comunicação voltado para produção de conteúdo para web. Ama escrever sobre política, cultura, economia e saúde. É apaixonado por jornalismo investigativo e estudar inglês. É perseverante e adora desafios. Seu hobby preferido é viajar.