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A hidrostática da gelatina no marketing eleitoral

A hidrostática é o campo da física que estuda os fluidos, tanto em seu estado líquido como gasoso, e os submetem às mesmas regras, princípios e fórmulas. Ocorre que existe um estado físico da matéria que não se submete a essas regras gerais: o gelatinoso. Não é sólido, também não é liquido, muito menos gasoso e, embora partilhe de grande parte dessas características, é contemplado com regras e fórmulas próprias.

No mundo moderno das comunicações também existe um fenômeno semelhante: a comunicação virtual. Estamos falando de pessoas e assuntos reais, mas que, em função da virtualização dessa relação, tem comportamentos e reações peculiares apenas ao meio virtual. Como essa forma de comunicação nasceu e evoluiu exponencialmente em curtíssimo espaço de tempo, poucos dados científicos sobre esse fenômeno são conhecidos e divulgados. Em parte porque grande parcela dos especialistas em comunicação ignoram os fenômenos tecnológicos e, em parte, porque uma grande parcela dos especialistas em tecnologia pouco compreendem os fenômenos da comunicação e da mídia. Não obstante, o grande esforço para superar essa déficit, a teoria acadêmica ainda corre a passos bem mais lentos que a evolução tecnológica.

Se não bastasse, quando versamos para o ambiente da comunicação e do marketing político, afunilamos ainda mais a especialização de conhecimentos e experiências da mesma forma como, inversamente proporcional, se aumentam significativamente as distâncias entre esse conhecimento especializado e o domínio tecnológico. Uma dicotomia em que, ambos os ramos de conhecimento, apresentam notórias dificuldades para compreender de forma panorâmica e integrada uma solução óbvia e adequada às necessidades do universo eleitoral.

Foi o tempo em que fóruns de discussão, chats e Orkut com seus grupos dominavam os relacionamentos pessoais na internet. As tecnologias foram se aprimorando e se popularizando, bem como os canais de acesso. Hoje, todos os smartphones estão conectados, sejam em rede própria ou “pendurados” no Wi-fi aberto dos estabelecimentos que o utilizam como ferramenta de aproximação de suas clientelas. As redes sociais, por sua vez, também se modernizaram e se segmentaram em objetivos e propósitos distintos. E isso é apenas o começo.

Muito embora os temas tecnologia e redes sociais já estejam na pauta do marketing político há mais de uma década. Foi há bem pouco tempo que Barach Obama explorou o Facebook em sua primeira campanha e apoiou-se no Twitter para sua vitoriosa caminhada rumo a reeleição. Ocorre que poucos desses modelos lograram o mesmo êxito aqui em terras tupiniquins, mesmo contando com a valorosa participação dos profissionais que protagonizaram essas campanhas americanas. Muito disso porque pouco se compreendeu da especificidade do comportamento do eleitor brasileiro e das complexas relações eleitorais do nosso país.

Nas relações de consumo, as empresas têm realizado um grande esforço para acompanhar essas novas tendências e se adaptarem as novas tecnologias. Muitas delas com êxitos enumerados e grandes cases de sucesso, mas ocorre que, embora o marketing político seja também lastreado em uma relação de consumo, assim como a hidrostática da gelatina, é um terreno extremamente peculiar, particular e pouco se pode aproveitar desse conhecimento prático nas campanhas políticas, pois não são adaptáveis e isso tem se comprovado pelo grande descontentamento dos candidatos e pela rotineira frustração das próprias empresas que prestam esses serviços de comunicação digital.

Nessa próxima eleição, agora em 2018, teremos mais um elemento a considerar: o Brasil vive um momento político confuso, de grande perturbação, de polarização de ideias e de ideologias pouco compreendidas por seus próprios militantes, de corrupção noticiada e exposta a cada minuto e escândalos revelados sem precedentes na nossa história. A credibilidade do político brasileiro baixou a níveis inéditos e vergonhosos. Os bastidores da política quase nunca são compreendidos de forma clara e a mídia, intencionalmente ou não, na maioria das vezes, mais confunde que esclarece o cidadão e isso, inexoravelmente, irá impactar imensamente na forma com a qual os políticos tentarão se comunicar com seus eleitores.

Este cenário demandará da ciência do marketing político eleitoral a perspicácia e a perícia necessárias para se adaptar às mais altas tecnologias disponíveis, a fim de potencializar a capacidade produtiva, com tecnologias de monitoramento de informação multimeios, expertise para criar conteúdos adequados e customizados para as mais diversas plataformas, bem como saber quando e em quais canais distribuirá esses conteúdos dentro de um projeto de mídia atualizado a essas novas ferramentas. Os candidatos terão que contar com comunicadores políticos tecnologicamente atualizados e, concomitantemente, com especialistas em tecnologia inteirados das necessidades e realidades políticas e, essencialmente, com conhecimento consistente de comunicação.

Trocando em miúdos, ao marketing político caberá compreender a “hidrostática da gelatina eleitoral” presente na comunicação política e na virtualização dos relacionamentos. Condição “sine qua non” para o sucesso.

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