Home > Opinião > Febre amarela continua a fazer vítimas no Estado

Febre amarela continua a fazer vítimas no Estado

Especialista afirma que a única forma de prevenção contra a doença é a vacina - Crédito: Clarice Castro/GERJ

Pelo segundo ano, a febre amarela continua a fazer vítimas no país. Minas Gerais já contabiliza 86 óbitos e foram confirmados 222 casos da doença, segundo o último boletim epidemiológico da Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES). Nas últimas semanas, a corrida pela vacina nos postos de saúde deixou muita gente insatisfeita, com dúvidas e medo. Além disso, o ataque aos macacos também mostra que a população ainda não compreendeu como a doença pode ser contraída. Pensando nisso, conversamos com a superintendente de Vigilância Epidemiológica, Ambiental e Saúde do Trabalhador Deise Aparecida dos Santos, da SES.

A febre amarela é conhecida há muitos anos, no entanto, a população não se previne na época de maior incidência. Quais são as ações da SES para reverter esse quadro?
O monitoramento da cobertura vacinal é feito de forma sistemática em Minas, desde que ele passou a fazer parte da área de recomendação de vacinação, em 2008. Apesar da comprovação da circulação do vírus no Estado desde quando ele foi integrado à área de recomendação de vacinação, o que sempre foi monitorado por meio da vigilância de epizootias (morte de primatas), nunca houve registro de casos humanos com relevância nos últimos 10 anos, à exceção do surto de 2017 e o atual. Desde as primeiras notificações, a SES-MG tem desencadeado as ações preconizadas para vigilância e assistência dos casos suspeitos de febre amarela: apoio aos municípios na investigação dos casos e nas ações de mobilização, controle e vacinação.

Qual o papel da população no combate à patologia?
A principal forma de prevenção da febra amarela é por meio da vacinação. A vacina é recomendada a todas as pessoas, principalmente aquelas que moram ou vão viajar para áreas com indícios de febre amarela e deve ser administrada pelo menos 10 dias antes do deslocamento para áreas de risco. As pessoas que não estiverem com doses em dia, precisam atualizar o cartão de vacina. Em abril de 2016, foi adotada a dose única em todo o Brasil, em conformidade com o Regulamento Sanitário Internacional. Isso significa que apenas uma dose é capaz de imunizar por toda a vida, não havendo mais a necessidade de reforço.

Mesmo com a vacina, quais são as chances de um indivíduo contrair a doença?
Conforme consta em um dos manuais de vigilância do Ministério da Saúde, a vacina de febre amarela “é altamente imunogênica (confere imunidade em 95% a 99% dos vacinados) e tem sido utilizada para a prevenção da doença desde 1937. Em humanos, a melhor evidência da eficácia vacinal está baseada no acompanhamento da situação epidemiológica, que demonstra a redução na incidência de casos após a introdução da vacina”. O fato de que a totalidade dos casos de acometidos com a doença serem originários de pessoas sem histórico de vacinação é uma forte evidência desses dados.

Qual a diferença entre a vacina fracionada e a dose única?
A dose fracionada é a utilização de um quinto (1/5) de uma dose padrão (0,5 mL) da vacina febre amarela (VFA), ou seja, 0,1mL. A diferença está no tempo de proteção, que na dose padrão é para toda a vida, e com a dose fracionada, de pelo menos 8 anos, segundo estudos divulgados pelo Ministério da Saúde. O fracionamento de doses é uma orientação do governo federal (Ministério da Saúde) para alguns Estados brasileiros. É importante lembrar que Minas Gerais não está na lista e não utilizará o fracionamento de doses.

Grande parte da população, por medo, tomou a vacina novamente. Existe alguma consequência para esse tipo de ato?
Não há risco de superdosagem se a pessoa tomar nova dose de vacina febre amarela. Entretanto, como é garantida a imunidade com uma dose, solicita-se que as pessoas tenham sempre em mãos o cartão de vacina para conferência antes da administração da vacina, permitindo que elas sejam direcionadas apenas a quem, de fato, está desprotegido ou não tem informações sobre o seu histórico vacinal.

Dizia-se que a doença estava erradicada, isso contribuiu para que ela voltasse dessa forma?
A doença nunca esteve erradicada no Brasil. O que aconteceu foi, devido às mudanças climáticas e ao desequilíbrio ambiental, uma migração da área de circulação do vírus, saindo da região Norte em direção ao Sul do país, onde grande parte da população estava sem cobertura vacinal contra a doença. Por outro lado, na região Norte, por ser área historicamente de circulação do vírus, a população se encontra imunizada, o que garante a ausência da ocorrência de casos humanos, ainda que ocorra as epizootias (população animal) que, mais uma vez, comprovam que a doença não se erradicou.

Mesmo com informações foram registrados ataques a macacos. A que se deve esse tipo de ação de algumas comunidades? Haverá alguma campanha mais incisiva para combater essa prática?
A SES-MG tem esclarecido a população sobre o assunto por meio de campanhas em redes sociais. Os macacos não transmitem a febre amarela para o homem. A doença é transmitida somente pela picada de mosquitos infectados com o vírus. Os primatas prestam um importante auxílio no controle da febre amarela, dando às autoridades informações valiosas sobre sua circulação. O achado de macacos mortos serve de alerta para que os órgãos de saúde pública iniciem campanhas de vacinação. Além de ilegal e de tornar mais crítico o estado de conservação desses animais, a matança indiscriminada, assim como o envenenamento intencional são extremamente prejudiciais ao próprio homem.
No caso de encontrar um macaco doente e/ou morto, o cidadão deve acionar o setor zoonoses do município para que as devidas providências possam ser tomadas. A partir da denúncia, o profissional das zoonoses acionado verificará se o animal morto apresenta condições de coleta e envio para exames laboratoriais.

O desastre de Mariana pode ter contribuído para esse surto de febre amarela?
As análises de vigilância ambiental mostram que há ciclos em que, de tempos em tempos, há maior circulação e reprodução dos vetores da febre amarela. A degradação ambiental contribui com esse processo, mas não é possível, com os dados disponíveis, fazer qualquer relação entre o desastre de Mariana e o quadro atual. Regiões que não foram acometidas pelo desastre apresentaram casos da doença agora e no ciclo de transmissão passado.


Conheça as campanhas do governo no link.


Ações da SES-MG
• Realização de ações educativas de mobilização social para eliminação de criadouros do mosquito Aedes aegypti em municípios infestados, visando evitar a reurbanização da febre amarela no Brasil;
• Ampliação da oferta de vacina aos viajantes não vacinados que se destinem à Área com Recomendação de Vacina no Brasil (ACRV) ou para países com risco de transmissão, pelo menos 10 dias antes da viagem;
• Intensificação da vacinação em municípios que são área com recomendação de vacina no Estado, elevando assim as coberturas vacinais, com priorização das populações de áreas rurais e silvestres;
• Notificação e investigação oportuna (até 24h) de todos os casos humanos suspeitos, incluindo aqueles de doenças febris ictéricas e/ou hemorrágicas, óbitos por causa desconhecida e mortes de primatas.


Ariane Braga
Apaixonada por animais, mercado econômico e educação. Tem 29 anos, graduou-se em jornalismo e cursou MBA em marketing na Unopar. Tem experiência de mais 8 anos na área de comunicação e marketing, com a elaboração de projetos, assessoria de imprensa, redação e edição de jornais e revistas, planejamento e monitoramento de mídias sociais, comunicação interna e fotografia.