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Fim do parcelado sem juros pode afetar o comércio

Nas últimas semanas uma proposta que tem o intuito de substituir o parcelado sem juros por um modelo de crediário, apresentada pela Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito e Serviços) ao Banco Central, movimentou algumas entidades do comércio. Segundo informações da Abipag (Associação Brasileira das Instituições de Pagamento), considerando as taxas de juros praticadas pelos bancos, estima-se que essa medida custaria aproximadamente R$ 90 bilhões no resultado do varejo, devido à redução do consumo.

O presidente da Unecs, (União Nacional das Entidades de Comércio e Serviço) Paulo Solmucci, explica que as vendas no parcelado sem juros têm peso significativo no volume total do varejo. “Por meio dessa modalidade, os comerciantes conseguem atrair clientes para seus estabelecimentos. Seu fim fatalmente reduziria de forma considerável às bases de venda do comércio brasileiro”.

Contudo, Solmucci não acredita que essa proposta será aprovada. “Ela foi feita integramente pelas grandes empresas ligadas aos bancos. O que vemos claramente é que isso irá gerar um prejuízo para a sociedade, mas primeiro para o lojista que perde a condição de escolher como irá vender. O Banco Central não vai fazer uma regulação deste tipo sem ouvir o setor”.

Ele ainda esclarece que um dos argumentos para a exclusão dessa linha de pagamento é que o parcelamento poderá ser oferecido pelo banco. “Mas não é bem assim, pois, no geral, as taxas bancárias são mais altas e não possui uma política de crédito que atenda integralmente o consumidor e lojista”.

Solmucci elucida que, na verdade, a Abecs não está criando um produto novo. “Eles querem é acabar com uma linha que já existe e é preferência tanto das empresas quanto do consumidor. Vivemos num país que só tem cinco grandes bancos, ou seja, não há concorrência, será terrível ter apenas opções de financiamento com os bancos”.

Ele salienta que a Unecs não é contra os bancos oferecerem crédito, apenas não querem que eles proíbam o lojista de oferecê-lo. “Na reunião que tivemos no Banco Central, eles disseram que esse é um assunto complexo e que não seria decidido dessa maneira. O que queremos é que haja transparência nesse diálogo, pois as vendas parceladas no cartão de crédito são muito expressivas. É algo em torno de R$ 700 bilhões e quem fornece grande parte desse crédito são os próprios lojistas com capital próprio e de terceiros – pega o dinheiro no banco com condições melhores que o consumidor. Não temos nada contra a oferta de novas linhas de crédito, o importante é não excluir algo que funciona bem e garante o movimento do comércio”, realça.

Se a proposta for aprovada, Solmucci explica que o consumidor teria as seguintes opções:
Recorrer ao banco (juros altos e restritivos);
Lojista passa a dar crédito no carnê (que tem altos juros, já que é um meio arriscado).

Posicionamento
O economista e analista financeiro da Fecomércio MG Juan Moreno ressalta que se a proposta for aceita, irá impactar nas vendas, pois as compras com cartão de crédito representam a maioria. “Não se sabe qual seria o impacto em Minas Gerais, pois ainda não foi feito um estudo sobre o tema, mas acreditamos que o resultado pode ser negativo”. Perguntado sobre a posição da federação, o economista diz que a entidade ainda está estudando a proposta e não tem um parecer.

Já a Fecomércio SP se pronunciou em nota em seu portal: (…) a instituição crê que interferências do Estado em operações de negócios privados, por pressão de algum setor ou por definição governamental, tendem a gerar resultados prejudiciais ao comércio. Ainda assim, caso a medida acabe por ser implementada, a Fecomércio SP defende que o recebimento das vendas pelo lojista seja realizado no dia seguinte à operação, em vez de cinco, após a venda, conforme solicitado pelo setor de cartões ao BC. (…).

Para falar sobre a proposta e se há alternativas, procuramos a assessoria de imprensa do Banco Central que, por sua vez, informou que a instituição não comenta o assunto.

Entramos em contato também com a Abecs que respondeu com a seguinte nota: “A associação esclarece que o BC tem consultado o setor de cartões no sentido de obter informações para subsidiar futura regulação, com o objetivo de ampliar a eficiência dos meios eletrônicos de pagamento e reduzir o custo do financiamento ao consumo, porém com o cuidado de não afetar o equilíbrio do sistema. Em relação a notícias recentes que afirmam haver proposta do setor para eliminar o parcelado sem juros do cartão de crédito, a Abecs reitera que essa informação não tem qualquer fundamento e que jamais considerou essa possibilidade junto ao regulador. Ao contrário disso, entre os diversos temas que são debatidos com o BC, a associação apresentou estudos sobre um novo produto para o financiamento ao consumo, que ampliaria o leque de alternativas já existentes – provisoriamente denominado “crediário”. Esse novo produto possibilitaria prazos maiores de financiamento ao consumidor por meio do cartão e seria uma alternativa especialmente para os comércios menores, que não contam com capital de giro para financiar suas vendas. Por enquanto, não há mais detalhes sobre o produto, uma vez que os estudos e as discussões sobre o tema se encontram em fase inicial com o regulador”.

Gigantes do varejo
Em contato com a assessoria das Casas Bahia e Magazine Luiza, eles também informaram que não comentam o assunto.
Ariane Braga
Apaixonada por animais, mercado econômico e educação. Tem 29 anos, graduou-se em jornalismo e cursou MBA em marketing na Unopar. Tem experiência de mais 8 anos na área de comunicação e marketing, com a elaboração de projetos, assessoria de imprensa, redação e edição de jornais e revistas, planejamento e monitoramento de mídias sociais, comunicação interna e fotografia.