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Uso excessivo de tecnologias pode causar dependência

Crédito: Pixabay

Nos últimos 20 anos, uma grande variedade de produtos eletrônicos como tablets, smartphones, videogames e computadores passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas. Seja para conversar com amigos, acessar as redes sociais, consultar informações na internet ou simplesmente lazer. Mas o uso dessas tecnologias em excesso pode causar dependência e acarretar diversos transtornos.

Para falar sobre esse assunto, o Edição do Brasil entrevistou Anna Lucia King, fundadora do Instituto Delete – Uso Consciente de Tecnologias na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), primeiro centro no Brasil especializado em atendimento de usuários abusivos ou dependentes de tecnologia. Ela também é autora do livro “Nomofobia”, sobre dependência de celular e internet.

O vício pode ser considerado uma doença? Como isso surgiu?

Sim. O nome é nomofobia. É um termo surgido na Inglaterra em 2008 a partir da expressão “no-mobile-phobia”, que do inglês abreviado virou nomofobia. Ela é usada para descrever o medo de ficar sem o telefone celular disponível. Mais tarde se estendeu também para o pavor de ficar sem o computador e outras tecnologias.

Todo mundo que usa tecnologia demais é dependente?

Nós temos que diferenciar o usuário abusivo, que são aqueles dependentes normais por lazer ou trabalho, daquele patológico e que precisa de um tratamento. Hoje, todo mundo usa celular em teatros, cinemas, sala de espera, metrô e, para quem observa, parece que são dependentes apenas porque usam muitas horas por dia. Vira doença quando a pessoa se não tiver a tecnologia funcionando, seja por falta de bateria ou wi-fi, apresenta sintomas de angústia, ansiedade e nervosismo. A dependência patológica tem sempre algum transtorno associado. O que precisamos é de uma etiqueta digital, ou seja, uma educação para usar a tecnologia na sociedade sem cometer gafes ou ser inconveniente.

Quais os sinais de uma pessoa dependente? Como funciona o tratamento?

Quando as pessoas procuram ajuda, elas não sabem exatamente o que tem, mas já perceberam que tiveram algum problema na vida pessoal, social, familiar, acadêmica ou profissional, porque estão usando muito a tecnologia. Há casos em que a pessoa repete o ano na escola, fica jogando até tarde e perde o sono, não almoça mais na mesa com a família ou deixa de praticar atividade física.

E quando a pessoa ou algum familiar começa a perceber isso, procura o Instituto Delete. É feita uma avaliação psicológica e psiquiátrica, colhemos os dados, verificamos o que está acontecendo e se a pessoa possui algum transtorno relacionado, normalmente é ansiedade, pânico, compulsão, depressão, dentre outros que pode estar associado a esse uso abusivo de tecnologias. Traçado o perfil do que a pessoa precisa, a gente programa um tratamento que pode ser ou não com medicação e sessões em grupo sobre uso consciente no dia a dia.

Qual o grupo mais atingido?

Dos anos 1990 até a alguns anos, os adultos foram os mais atingidos. Mas atualmente temos muitos jovens dependentes de jogos online, uma vez que o mercado tem fabricado alternativas cada vez mais interessantes, o que é muito atrativo para esse público.

De que maneira esse vício pode prejudicar a vida de uma pessoa?

Em vários sentidos. Na vida pessoal, por exemplo, se você tem um relacionamento e ao chegar em casa seu companheiro não te dá atenção, por ficar grudado em alguma tecnologia, já está prejudicando. Se você é estudante e deixa de entregar algum trabalho, porque passa o dia todo jogando, terá problemas no colégio ou faculdade. Se fica até tarde ou não dorme, no dia seguinte você vai estudar ou trabalhar cansado. Ao deixar de fazer atividade física para ficar no computador também está se prejudicando. A criança que não brinca mais na rua com os colegas, não está se socializando e fica propensa a futuramente desenvolver obesidade e diabetes.

Quais os riscos e consequências?

Existem prejuízos em todos os aspectos por conta do uso abusivo da tecnologia. Também podem aparecer problemas físicos, como dores na coluna e pescoço, problemas de visão e articulação por ficar usando algum equipamento todos os dias e por muitas horas. Por exemplo, uma pessoa que é alta e utiliza a mesma mesa de computador de alguém que é baixo, está usando de uma forma inadequada. Outra questão é com relação ao uso do celular. O peso da cabeça é em média oito quilos e se você abaixa cem vezes por dia para olhar o celular, ao longo dos anos terá um problema sério na coluna cervical.

Como os pais ou a família deve lidar com essa situação?

Os pais são os responsáveis pelo mau uso das tecnologias pelas crianças. Muitos dizem que seus filhos estão viciados, quando, na verdade, eles é que estão dando toda a condição. Colocam o computador no quarto e deixam o filho ficar horas mexendo no equipamento. A criança não é responsável por ela e os pais é que tem que colocar limites. Como deixar usar somente uma hora por dia, depois que fizer o dever de casa, após almoçar na mesa. E depois o lazer pode ser brincar no computador. A criança precisa ser educada da maneira certa desde pequena, porque depois ela se acostuma mal e fica mais difícil controlar.

 

Daniel Amaro
Formado em jornalismo, Daniel tem 25 anos e possui experiência em assessoria de comunicação voltado para produção de conteúdo para web. Ama escrever sobre política, cultura, economia e saúde. É apaixonado por jornalismo investigativo e estudar inglês. É perseverante e adora desafios. Seu hobby preferido é viajar.