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Fake News se intensifica nos últimos anos

Elas estão nos meios de comunicação, mídias sociais, Whatsapp e acabam na roda de conversa de um bar e, até mesmo, na hora do jantar em família – estamos falando do Fake News – as notícias falsas. Uma pesquisa da Trend Micro revela que existem motivações e um comércio online para a disseminação de notícias falsas e manipulação da opinião pública. Um exemplo disso foi a eleição nos EUA, na qual as Fake News viraram uma tendência para difamar os candidatos.

No Brasil, uma pesquisa da Kantar destaca que a prática se intensificou entre 2016 e 2017. O instituto constatou que os ataques aos veículos de comunicação consolidados não conseguiram prejudicar a reputação da imprensa nos EUA, Reino Unido, França e Brasil (países pesquisados) – pois 73% dos entrevistados enxergam que o jornalismo de qualidade é fundamental para uma democracia saudável. No entanto, 44% não acreditam que o que leem é verdadeiro.

Veículos de notícias online também tiveram danos a sua reputação, pois 41% disseram ‘confiar menos’ neles. Mais de três quartos dos consumidores de notícias declaram ter conduzido uma verificação de fatos para averiguar uma história, enquanto 70% reconsideraram compartilhar um artigo, preocupados que pudesse ser ‘Fake News’. Por outro lado, quase 1 em cada 5 entrevistados admite ter compartilhado uma história após ter lido apenas o título. Por fim, a cada 100 leitores de notícias, 58 disseram ter menos confiança no noticiário político e eleitoral visto nas redes sociais, por causa desse movimento.

Conversamos com a professora, jornalista e doutoranda em Comunicação Social pela UFMG, Luciana Andrade Gomes Bicalho sobre o assunto. Ela ressalta que o estudo nesse campo ainda é novo no Brasil, mas pesquisas devem surgir em breve sobre o tema.

O que é Fake News? Quando ela surgiu?
Fake News é um fenômeno atual que consiste na distribuição de notícias com conteúdos não factuais, mas que seguem um padrão jornalístico de produção. É impossível datar exatamente o seu nascimento, visto que notícias falsas sempre existiram (o que resultou no conceito de imprensa marrom). Entretanto, podemos afirmar que as redes sociais online potencializaram a prática, principalmente pela dinâmica de compartilhamento.

Esse movimento se intensificou com as mídias digitais?
Sim, com certeza. Nos ambientes de compartilhamento das redes sociais online, a conversação entre os pares tem muita credibilidade. O raciocínio é simples, sempre confiamos nas pessoas mais próximas. São fontes legítimas e com grande peso nas nossas decisões. E na correria do cotidiano, raramente checamos se o que está sendo compartilhado tem fundamento ou não. Isso também vai ao encontro da desconfiança gerada em relação ao jornalismo tradicional. Existe uma crise dos veículos de comunicação, principalmente online, que intensifica a conversação entre os pares.

Como as pessoas podem identificar uma notícia falsa? E a grande imprensa?
A notícia falsa segue os padrões técnicos jornalísticos, o que dificulta sua identificação. Estamos vendo hoje uma proliferação de plataformas de Fact-Checking (tradução livre: checagem de fatos), que buscam investigar se o que está sendo compartilhado realmente tem base factual. Eles criam protocolos específicos para realizar essa checagem. São procedimentos que buscam outras fontes para referenciar o que está sendo dito. Testam cada informação divulgada, vão atrás de base de dados, pesquisas estatísticas, assessorias de imprensa etc. Tudo isso para trazer mais profundidade sobre aquilo que circula nas redes sociais. Nesse sentido, eu acredito que falta investir hoje na educação digital. Precisamos entender como funciona a propagação e produção de informação no ambiente online. As pessoas precisam ter consciência do uso e do aprofundamento da informação que circula entre os pares. Investir na leitura e na pesquisa principalmente.

Quais são as consequências de uma notícia falsa para a sociedade e mídia?
Primeiro a sensação de desconfiança em relação ao jornalista. Acho que isso é letal para a profissão, pois credibilidade é a base do trabalho. Quando deixamos de ser referência de informação de qualidade, perdemos o nosso propósito. E acho que a sociedade também perde muito com o empobrecimento do jornalismo. Com a circulação de notícias falsas, ficamos inseguros para a tomada de decisões políticas, econômicas, sociais etc. Fora o aumento da circulações de discursos de ódio, pois os haters se aproveitam desse cenário para propagar ideias preconceituosas. Resumindo, a pior consequência é a instabilidade da construção social.

O jornalismo colaborativo pode ser considerado um vilão para essa prática?
Não, ele é parte de uma dinâmica de compartilhamento que se tornou o palco dessas práticas. Mas de forma alguma podemos dizer que ele é um vilão. Talvez, seja apenas mais uma vítima. O jornalismo colaborativo é uma forma de entender a cultura participativa, que se inscreve em um cenário de mudanças não apenas tecnológicas, mas culturais e sociais. Não tem como voltar atrás. Todos nós queremos produzir conteúdo. Essa é a realidade. Estamos o tempo todo falando de economia criativa e colaborativa. Todos possuem bagagem para contribuir. Não podemos retalhar esse tipo de jornalismo porque existem pessoas mal-intencionadas.

Como exemplo, houve uma ampla divulgação internacional de uma falsa notícia do México, em que uma criança estava soterrada e pedindo socorro. O governo desmentiu o fato mas, em poucas horas, a mídia já havia explorado o caso. A busca pelo furo faz com a imprensa esqueça da essência do jornalismo?
Esse sempre foi um problema para o jornalismo. Não podemos nos esquecer que existem interesses comerciais por trás. É claro que o furo ainda é um recurso para alcançar mais visibilidade. Mesmo no cenário de instantaneidade das redes sociais online, os veículos de comunicação querem o crédito pela informação. E como tudo é muito rápido no digital, os procedimentos para apuração e investigação do fato ficam mais vulneráveis.

Qual a saída para que a imprensa minimize casos como esse? Teremos que conviver com isso?
Não acho que o conformismo seja o melhor caminho. Precisamos aproveitar esse momento de crise e instabilidade para reinventar o jornalismo. Pode parecer clichê ou utopia, mas sem uma reformulação profunda das práticas jornalísticas, incluindo a base do modelo de negócio, vamos perecer e perder totalmente o propósito da profissão. A saída agora seria abrir para um debate intenso e público, buscando entender o papel da imprensa nesse novo cenário. A sociedade mudou, as dinâmicas são outras, então precisamos ver qual será nosso espaço para retomar a credibilidade. Talvez, a maior contribuição da imprensa hoje seja trazer profundidade para as informações superficiais que são compartilhadas nas redes sociais.

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, no capítulo I – Do Direito a informação, lê se a seguinte afirmativa: II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público. 

Ariane Braga
Apaixonada por animais, mercado econômico e educação. Tem 29 anos, graduou-se em jornalismo e cursou MBA em marketing na Unopar. Tem experiência de mais 8 anos na área de comunicação e marketing, com a elaboração de projetos, assessoria de imprensa, redação e edição de jornais e revistas, planejamento e monitoramento de mídias sociais, comunicação interna e fotografia.