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Corrupção: do império a Temer

“O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera. (…) os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. – Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam”. Padre Antônio Vieira, século XVII, Sermão do Bom Ladrão

A corrupção no Brasil é uma mancha, um exercício, um vício, que tem sua origem na relação espúria e patrimonialista entre Estado e a sociedade, que herdamos das práticas portuguesas e espanholas. Quando ainda éramos colônia e mesmo no período Imperial, a corrupção campeava solta nessas terras descobertas por Cabral.

Dando um salto no tempo e passados muitos governos não mais honestos, já na ditadura que se instalou pós-golpe de 1964, nascia um primeiro arremedo da Lava Jato. O presidente Marechal Castelo Branco criou a Comissão Geral de Investigações (CGI). Essa comissão criaria o “Livro Branco da Corrupção”, obra que daria total divulgação aos atos, fatos e nomes envolvidos em corrupção. O tal livro jamais existiu e a CGI acabou por ser extinta em 1978 pelo presidente General Ernesto Geisel.

Ao final do período militar, passamos pelas “Diretas Já” que, para levar a cabo o projeto de poder de Ulisses Guimarães e Tancredo Neves, foi preciso criar uma ampla aliança de apoio no Congresso – onde aconteceria a eleição indireta – dando espaço para o aparecimento do grupo que hoje está instalado no Palácio do Planalto, sob a sigla do PMDB. Desse roteiro de fim de ditadura, restou como presidente da República o Sr. José Sarney, cria da Arena, prócer do PMDB e dono de uma das biografias mais discutíveis da nossa história contemporânea.

Após esse desastroso governo meio militar, meio civil, vindo do Maranhão, vem das Alagoas o caçador de marajás Fernando Collor de Mello, trazendo junto seu grupo de amigos, capitaneado por PC Farias. A corrupção era vultosa e escancarada, o povo nas ruas entoava o “Fora Collor”, e o Parlamento Brasileiro encontrava a justa causa para o impeachment: Collor não explicou a propriedade de um Fiat Elba. Em 2014, o STF dá sua contribuição para este cenário grotesco e inocenta o alagoano de um tiro só.

Fora Collor, assume o mineiro destemido e topetudo Itamar Franco. Este, saudosista confesso, chama o maior fabricante de automóveis do país e pede que voltem a produzir aquela maravilhosa e obsoleta máquina: o Fusca. Para recompor a economia dos efeitos catastróficos e fantasiosos legados de Collor e tornar nossa economia mais real, Itamar convoca o professor, sociólogo, economista e tucano Fernando Henrique Cardoso, que se torna a estrela da companhia e realiza suas ambições se elegendo presidente da República.

FHC, ex-PMDB, ex-amigo de Lula, embriagado com seu primeiro mandato e vendo que só com o bando de tucanos não poderia residir no Palácio da Alvorada por mais 4 anos, convoca o Parlamento para mudar a Constituição Brasileira – aquela Constituição Cidadã do Ulisses Guimarães – compondo por R$ 200 mil cada voto, conforme confissão do deputado Ronivon Santiago e a investigação prova, conforme publicação do jornal Folha de São Paulo. Com parceiros do quilate de José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves, FHC realiza seu projeto de 8 anos de governo e tem o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira de número 36.

Depois de promover uma concentração de renda nunca antes vista na história desse país, FHC passa a faixa presidencial ao nordestino, torneiro mecânico, desletrado e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Lula desconcentra a renda, inclui 50 milhões de brasileiros no mercado de consumo, se alia ao PMDB e promove a maior compra de votos de parlamentares já vista em nossa história. Chegamos a era do Mensalão. Ainda que prejudicado pelos “Marcos Valérios” e “Lava Jatos” no seu caminho, Lula faz sua sucessora e dá continuidade ao projeto petista de 20 anos de poder.

Sem nenhuma experiência do jogo político e fiando na notória cancha da cúpula peemedebista, assume o comando do país a mineira, gaúcha, economista e mal humorada Dilma Rousseff. Entre pequenas gafes de oratória, o movimento “Vem Pra Rua”, os grandes problemas de gestão e escândalos inéditos, como a compra da Pasadena Refinery System Inc. pela Petrobras, e o volume assumido pela operação Lava Jato, Dilma é atropelada pelo PMDB e pelo seu vice-presidente e perde seu mandato numa histórica, inesquecível e circense decisão do Plenário da Câmara Federal.

Enfim, chegamos ao ápice. Assume a Presidência da República o paulista, advogado trabalhista, vaidoso, ex-deputado federal, marido de Marcela, ex-presidente da Câmara, presidente nacional do PMDB e vice- presidente da República Michel Miguel Elias Temer Lulia. Temer, demonstrando fidelidade aos seus amigos e uma capacidade enorme de abraçar quem precisa, traz para compor seu governo alguns próceres do PSDB e do PMDB, escolhendo entre eles os melhores nomes, ainda que frequentem há muitos anos as páginas policiais e políticas do Brasil: Geddel Vieira Lima, Moreira Franco, Raul Jungman, Bruno Araújo, Blairo Maggi, Romero Jucá, Helder Barbalho, Edison Lobão, Eliseu Padilha, Valdir Raupp, Zequinha Sarney, Leonardo Picciani, Henrique Eduardo Alves, Aloysio Nunes, José Serra, Alexandre de Morais, dentre outros. Esse time, amparado pelo apoio de parlamentares de peso como Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Aécio Neves e, tendo amigos poderosos como Marcelo Odebrecht, Lúcio Funaro e Joesley Batista, acabou por levar nosso sofrido povo a desacreditar na mística de que Deus é brasileiro.

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