Home > Opinião > Por que as pessoas estão cada vez mais fanáticas?

Por que as pessoas estão cada vez mais fanáticas?

Crédito: Reprodução

É cada vez mais comum presenciarmos conversas sobre futebol, religião e, principalmente, política virarem motivo de briga. Familiares param de se falar e amigos cortam relações, o que prova que o ser humano está bastante inflexível para discutir de maneira sadia. A vida virou um palco de guerra constante.

Essa irredutibilidade é uma das principais características do fanatismo. A professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Tatiana Mourão Lourenço, explica que uma pessoa com comportamento fanático tem grande dificuldade em mudar de opinião. Confira a entrevista:

Professora do departamento de saúde mental da UFMG, Tatiana Mourão Lourenço - Crédito: Bruno Carvalho
Professora do departamento de saúde mental da UFMG, Tatiana Mourão Lourenço – Crédito: Bruno Carvalho

O que leva a pessoa a ser fanática?

São vários os fatores e é uma questão individual, ou seja, cada pessoa terá uma motivação. Mas o que chama a atenção são as características inflexíveis de personalidade. Eu comparo uma pessoa flexível a uma palmeira, quando o vento bate, ela mantém as raízes, o eixo, mas ainda assim pode ir de um lado para o outro. A inflexível é como um carvalho. Não suporta mudanças e nada diferente daquilo, tanto que quebra por não ter a flexibilidade necessária para aguentar à ventania. O fator principal para o fanatismo é esse.

Como se caracteriza fanatismo?

É um pensamento de que um lado é bom e certo e o outro é mal e errado. E com base nisso uma supervalorização dessa ideia é formada. Quando ela se solidifica cria-se uma incapacidade de mudar e se transformar. O exemplo máximo do fanatismo seria a doença mental. Mas ele pode ocorrer em pessoas sem qualquer problema psiquiátrico.

 No nosso país, o fanatismo tem, em sua maioria, origem religiosa, política ou no futebol. Então, a pessoa vai pensar: a minha religião, meu time ou meu partido é o certo e a opinião do outro é errada. Com isso, ela cria um certo desprezo pelo o outro lado.

Qual é o perfil de um fanático?

É uma pessoa que demonstra ser segura o tempo todo, mas, na verdade, não é tão confiante como quer parece ser. Quem tem convicção de suas ideias e crenças está disposto a olhar o outro lado e aceitar. É um movimento espiral de ir crescendo com o próximo, construindo e reconstruindo as verdades todos os dias. Já o fanático, não. Para ele, a verdade está pronta e nada pode mudá-la.

Existe diferença entre gostar muito e ser fanático?

A diferença é tênue. Gostar de algo é construtivo, traz alegria e felicidade para o outro. Está ligado a um sentimento. Ser fanático é destrutivo e está ligado ao ódio. A pessoa não respeita o diferente e acaba por hostilizar o que o próximo pensa. Um exemplo é quem gosta muito de um time de futebol, fica triste quando ele perde e contente quando ganha. Quem é fanático quer agredir o adversário pela derrota.

O Brasil é um país onde o fanatismo é muito comum, principalmente, em relação ao futebol, religião e política. Por que isso acontece?

Isso é uma questão de identidade. A pessoa não se enxerga mais como quem ela é, mas como a coisa cuja qual ela é fanática. Atualmente, o tecido social do nosso país está muito raso, fazendo com que a qualidade de vida se torne ruim e incerta e isso tende a nos jogar em situações de fanatismo.

Quais podem ser as consequências desse comportamento ?

Toda a insegurança vai gerar uma ansiedade. E isso será convertido em hostilidade. Essa ação pode ser contida, a pessoa vai jogar essa hostilidade para cima dela mesma, mas também pode ser dirigida ao ambiente. Em todo caso, essa hostilidade vai crescendo e isso irá gerar uma destrutividade na vida.

Como fazer uma intervenção a fim de mostrar que a pessoa é fanática?

É preciso ouvi-la e o ambiente para essa conversa tende a ser favorável. Não podemos esquecer que o funcionamento dela não está excelente. Muitas vezes, o melhor é deixar com que ela fale tudo o que quiser mesmo isso sendo difícil. E depois mostrar de forma delicada e sutil, que você pensa de modo diferente. É quase servir como um eco a fim de mostrar outro lado e fazê-la refletir de que o pensamento dela não é o único. É como se acionasse um gatilho para fazer com que ela pense com mais clareza.

O x da questão é o quanto aquilo prejudica a vida do fanático. Se suas relações familiares, sociais e emocionais estão sendo abaladas, é necessário um trabalho. Há fanáticos em situações mais delicadas e que precisam de um acompanhamento psiquiátrico, em todo caso, vale a pena buscar ajuda.

Natália Macedo
Belo-horizontina, 22 anos. Graduanda em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio de Sá, fez cursos de Consultoria de Imagem e Design de Moda. Há 3 anos criou um blog voltado para o público feminino. Interessada em assuntos relacionados à minoria, gosta de dar visibilidade as pequenas causas voltadas a inclusão e empoderamento destes nichos.