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Pequeno tributo ao meu amigo João Saldanha

Conhecer, conviver, trabalhar junto dele e me tornar seu amigo foi um privilégio que a vida me concedeu. No dia 3 de julho, ele estaria completando 100 anos de histórias, conhecimento, causos da política e da bola e também uma intensa vida. Culto, dono de uma formação acadêmica incomum por ter estudado na Europa, advogado por opção curricular, jornalista, radialista e desportista por preferências pessoais, ele nunca deixou de lado suas paixões populares para se tornar “um gravatinha”, como se dizia à época romântica e efervescente do Rio de Janeiro. Estou lembrando meu amigo João Jobim Saldanha, o mais carioca dos gaúchos, nascido em Alegrete no interior do conservador e tradicionalista Rio Grande do Sul, e que mas parecia um “carioca da gema”, incluindo seu amor pelo Botafogo, que dirigiu como técnico e com o qual ganhou um campeonato.

João é eterno no mundo no futebol. Quem gosta de pesquisa e de saber mais sobre personagens fascinantes, não terá qualquer dificuldade em conhecer João Saldanha, tantas são as referências, textos, livros, reportagens de jornais, TVs e livros, sobre ele, sendo três deles de sua autoria. Recomendo que o façam e se encantem com “João Sem Medo”, como Nelson Rodrigues o classificou.

E aonde eu entro na vida de Saldanha? Foi em 1968 quando a ousada Rádio Itatiaia decidiu que este guapo rapaz com apenas 21 anos deveria se juntar como repórter ao comentarista Saldanha e ao narrador Jorge Cury, ambos da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, para acompanhar em cadeia radiofônica (hoje o pomposo nome é pool) a mais longa excursão da seleção brasileira até estes tempos. Por falta de verba, cheguei depois do primeiro jogo, na Alemanha. Porém, da Polônia em diante foi um aprendizado só, a cada instante, não apenas nas transmissões, mas lições de história, exemplos de cultura e intermináveis papos sobre como resistir à ditadura.

Depois de escolhido técnico da seleção, vivendo sob pressão da mídia com entrevistas a toda hora, pressão dos generais da ditadura por ser ele um comunista convicto e inabalável, João sofreu uma queda de resistência física muito grande. Seu aspecto de fragilidade, que percebi numa entrevista dele para a Rede Tupi de Televisão, retransmitida em Belo Horizonte pela TV Itacolomi, me fez ligar e o convidar para vir descansar no Miguelão, onde Januário Carneiro, fundador e dono da Itatiaia, tinha um bom sítio.

João topou e veio com Tereza, sua mulher à época. Foram outros dias de intensa convivência, sem que ninguém no Brasil, além de nós da rádio, soubesse onde estaria o criador das feras que nos dariam o título mundial de 1970, no México. Tenho mais, muito mais sobre o meu amigo, incluindo uma extensa entrevista exclusiva, que não me canso de ouvir para aprender e reverenciar um dos meus maiores ídolos. Saudades de você, João querido!