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Movimento antivacina avança no Brasil e preocupa especialista

Marise Oliveira é infectologista e professora da UFMG - Crédito: Departamento de Medicina da UFMG

Grupos contrários à vacinação estão ganhando força no país. Uma prova disso são algumas páginas no Facebook que estão divulgando assuntos relacionados ao tema e já contam com mais de 13,2 mil seguidores. Esse movimento preocupa o Ministério da Saúde, afinal a instituição constatou a queda de adesão por parte da população em campanhas de imunização oferecidas, gratuitamente, no Sistema Único de Saúde (SUS). Por exemplo, em 2016, a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, teve adesão de apenas 76,7% do público-alvo.

Na Europa, esses movimentos antivacinas são apontados como um dos principais fatores para o recente surto de sarampo, onde 7 mil pessoas já foram contaminadas pela doença.

Para conversar sobre o assunto, o Edição do Brasil entrevistou Marise Oliveira Fonseca, infectologista, professora do departamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UMFG) e coordenadora de serviço de doenças do Hospital das Clínicas.

1- Qual o risco se a população parar de tomar vacinas?

Algumas doenças que já foram controladas podem ser reintroduzidas novamente na sociedade. Na década de 1990, fizemos o controle da poliomielite nas Américas, por meio das campanhas do Zé Gotinha, e isso é uma conquista espetacular. Ela é uma doença grave e pode causar sequelas nas pessoas. Antes disso, convivemos com várias pessoas que tinham dificuldade de caminhar devido à enfermidade e algumas até morriam. Se a população parar de vacinar contra a poliomielite, ela volta e pode trazer o impacto da doença para a sociedade, como morte e sequelas.

2- Tem como o governo impor para que a população tome vacina?

O governo tem algumas medidas que incentivam a população a tomar vacinas, como questões trabalhistas nas quais a empresa pede para o funcionário, antes da sua contratação, o cartão de vacinas. Além disso, a carteira vacinal das crianças também é exigida em determinadas situações. Porém, não tem como o governo impor, ditatorialmente, a vacinação. Hoje, o que existe são campanhas educativas para a conscientização.  

3- Como são feitas as vacinas?

Existem diferentes tipos de vacinas, que podem ser produzidas a partir de toxinas do agente ou fragmentos de bactérias. Para serem comercializadas, os estudos de produção duram muito tempo, algumas demoraram até 10 anos para aprovação e verificação de sua eficácia. Além disso, as vacinas também possuem diferentes valências entre elas. Por exemplo, a mais eficiente é aquela que se assemelha com o agente da natureza, pois os imunizantes terão todos os ativos produzido pela doença.

4- Elas realmente podem fazer mal para as pessoas?

Existem algumas lacunas de efeitos colaterais que podem acontecer. As mais brandas são, por exemplo, dor muscular e febre, já as mais graves, que podem ser uma forte alergia ou ser levado para o hospital, são raras. Quando a gente compara os efeitos positivos que uma vacina pode causar em relação os mais adversos, o primeiro se sobressai sobre o segundo. E isso é comprovado cientificamente.

5- Por que devemos tomá-las?

As vacinas devem ser tomadas por duas causas básicas: a proteção individual e, a mais importante, coletiva. Se analisado o resultado de mortalidade infantil antes e depois que as vacinas entraram no calendário, podemos notar números bem contundentes à favor dos imunizadores. Elas trouxeram sobrevida para crianças, adultos e idosos.

Essas páginas do Facebook que são contra a vacina prestam um desserviço à sociedade, pois divulgam informações sem comprovação científica e isso pode representar um risco muito grande para as pessoas. Frases como “vivemos anos sem vacina e por que vacinar agora?” são, na minha opinião, um absurdo. Esses movimentos me dão muita indignação, porque existem estudos comprovando justamente o contrário.

Crédito: Ministério da Saúde
Crédito: Ministério da Saúde