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Indignação. Indigna nação.

“…a minha indignação é uma mosca sem asas
Não ultrapassa a janela da minha casa
Indignação
Indigna Nação…”

A música In(dig)nação, composta pelo mineiro Samuel Rosa, do álbum Skank da década de 90, que ecoava nas vozes dos cara pintadas quando do impeachment de Fernando Collor, se mostra incontestavelmente contemporânea.
Indignação é “o sentimento de cólera ou desprezo experimentado pelas pessoas diante de indignidade, injustiça e afronta”. Esse sentimento sobressaia nas formas que a nação brasileira manifestava sua repulsa diante do fracasso do governo Collor. Aquele governo que veio para ser a salvação da Pátria após a trágica sequência de governos alinhados com o golpe de 1964. Essa indignação que foi a marca do movimento Fora Collor é, igualmente, a marca dos últimos movimentos que chegaram às ruas com a crescente insatisfação com o governo Temer, que assim como Collor, vem impondo à nós brasileiros, uma frustração cada dia mais indigesta.
Somos uma nação indignada por sermos cotidianamente desinformados e por nos sentirmos confusos e alheios. Somos desinformados pela mídia que opta por falsear fatos relevantes e, muitas vezes, informar o irrelevante. Parte importante dessa mídia explicita aspectos inadequados dos acontecimentos e, acima de tudo, se vale de seu indiscutível poder para criar versões que atendam mais aos seus próprios interesses que aos interesses republicanos dos comuns.

Somos uma nação indignada por vivermos em um sistema que nos oprime, que cerceia o direito à educação e a cultura, que faz os indignados se sentirem indignos, como o anfitrião que se constrange diante da visita, mesmo estando em sua própria casa. Indignados com líderes indignos, que confundem o nobre poder de servir com o poder de se servir. Que apadrinham os juízes que deveriam julgar seus malfeitos, que, descaradamente, reduzem os direitos e benefícios dos cidadãos em favor dos interesses privados, mesmo quando esses indignados pagam caro pelos serviços a que deveriam ter acesso.

Somos uma nação indignada por termos uma indústria que desrespeita aqueles que a sustentam, adotando políticas de alta lucratividade, assim como ocorre no setor financeiro e automobilístico, que acumulam recordes de lucros comparado ao cenário mundial e, quando não satisfeitos com esse impublicável lucro, ameaçam abandonar, à mercê da própria sorte, os seus consumidores e, principalmente, as centenas de famílias que dedicam suas vidas à barganha da simples sobrevivência. Indignados com o desrespeito do setor alimentício que parece adotar a política da irresponsabilidade e descaso no processamento dos alimentos que chegam caro à mesa do cidadão.

Somos uma nação indignada por não sermos interessantes aos indignos. Consequentemente, não somos respeitados. Percebemos a indignidade como uma metástase histórica e insolúvel, que vai corroendo o caráter dos brasileiros.
Resta a esse povo brasileiro, usar do instrumento que têm – o voto – e se livrar desses poderosos que insistem em fazer do cidadão uma simples peça dos seus mais mesquinhos interesses. Que façamos assim, com toda dignidade.