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Preconceito linguístico tem como consequência a exclusão social

Os principais grupos que influenciaram em nossos costumes foram os indígenas, africanos, imigrantes europeus, asiáticos. Além da questão racial, outro fator que favoreceu essa mistura de povos foi a geografia.

As regiões que compõem nosso mapa trazem consigo muitas culturas, situações socioeconômicas e políticas diferentes. Em consequência disso, a maneira de falar de cada canto do Brasil é distinta e, como tudo que vai contra o costume de certo nicho, gera polêmica e julgamentos.

Hoje em dia, várias pessoas sofrem com o chamado preconceito linguístico. Recentemente, vimos na mídia, um caso de um médico que expôs um paciente quando o mesmo o questionou sobre um tratamento de “peleumonia”. Situações como essa são comuns no dia a dia. O técnico industrial Pedro Lucas, mudou-se de São José da Barra/MG para São Paulo e, em seguida, veio para Belo Horizonte trabalhar. Ele conta que sofre depreciações todos os dias, mas que gosta de saber que carrega origens de sua terra. “Alguns acham o meu sotaque bonito, outros não. Porém, sempre que começo a falar já vem o questionamento de onde sou, do que estou fazendo aqui. Eu já não me incomodo com isso, no entanto, às vezes, têm situações constrangedoras. Imagino que quem não saiba lidar com elas, se sinta muito mal”, acredita.

Renato Russo já dizia: “Eu canto em português errado”, mas com toda a mistura do país verde e amarelo, o que poderia ser julgado como certo? O doutorando em Linguística, Carlucci Medeiros, afirma que no que se refere à Língua Portuguesa, é difícil achar erros de fala ou pronúncia. “A linguística é muito vasta. E a fala reflete a cultura e a forma de viver de cada comunidade. Se você não tiver um referencial, não é possível definir o que é errado”.

O estudioso ainda elucida sobre esse tipo de preconceito. “Na língua portuguesa existe a norma culta que é aplicada em uma redação do Enem, por exemplo. Mas, nem todo mundo tem acesso a essa norma e, automaticamente, é privado de estar em algumas instâncias como a universidade. O preconceito existe quando alguém diz ‘a gente vamos’ e é visto como menos inteligente, fazendo a crítica baseada exclusivamente no campo acadêmico”.

Medeiros reforça que algumas “falhas” têm muito a ver com a regionalidade de cada indivíduo. “No caso das pessoas que têm o “r” retroflexo, o que chamamos no cotidiano de ‘puxar o r’, elas são taxadas de caipira, algo que acontece com o Norte de Minas. Nesse contexto, é ainda pior, pois usam o termo caipira para criticar essas pessoas como se fossem incapazes de civilizar. O mesmo “r” não é visto como algo pejorativo no inglês americano, o que comprova que há sotaques mais aceitos que outros”.

A fala nordestina também é muito julgada, na maioria das vezes, por uma questão histórica já que houve uma migração de muitos nordestinos para o Sudeste do país na busca por emprego e, com isso, o choque cultural foi inevitável. Eles eram vistos como a causa da pobreza das grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro.

Consequências

De acordo com o psicólogo e mestre em análise do comportamento, Gustavo Teixeira, esse preconceito pode trazer sérias decorrências à vítima. “O fato de alguém expressar uma palavra de forma errada, de acordo com a norma culta, não estabelece seu valor como um ser humano. Um exemplo disso são alguns políticos, que se expressam de forma impecável, mas não possuem necessariamente um comportamento ético. Se a pessoa sofre depreciação pela sua fala, ela pode vir a ter dificuldades de expressar, ter medo de expor suas ideias em determinados grupos e de frequentar certos ambientes. Ela passa a se considerar menos importante e inteligente”.

Teixeira finaliza ao dizer que a norma não deve ser ignorada, mas que o respeito ao próximo é essencial. “Não devemos desconsiderar certas regras da língua, até porque algumas são responsáveis por organizar nosso convívio. Se todos nós falássemos de um jeito distinto, não haveria comunicação. Mas, como algo vivo, a língua pode ser influenciável e ir variando. É tudo uma questão de respeito”.

Nat Macedo
Belo-horizontina, 22 anos. Graduanda em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio de Sá, fez cursos de Consultoria de Imagem e Design de Moda. Há 3 anos criou um blog voltado para o público feminino. Interessada em assuntos relacionados à minoria, gosta de dar visibilidade as pequenas causas voltadas a inclusão e empoderamento destes nichos.